segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Grito histórico

"Todos nós nascemos originais e morremos cópias." (Jung)


Ao andar pelas ruas da cidade, sinto-me como quem já não consegue render-se a suposição irrefletida . Sinto tênue calmaria em penetrar os rostos mais conflituosos e ver beleza na simplicidade da rotina desconhecida de cada traço facial. Presto muita atenção em gargalhadas libertinas, ombros curvados, gravatas apertadas, mãos fechadas, pernas duras entre passos espavoridos, sapatos coloridos, lábios glaciais e qualquer ruído que dê resplendor ao meu olhar analítico. Como se fossem obras de arte, percalço a intransigência de participar da ressonância espectral que cada ser humano emite sem dizer. Imagino suas súpilicas, valsas de aflição, ofícios fúnebres, manias peculiares, nomes próprios, angustias espantosas, ansiedades imaculadas, endereçoes , sonhos de cristal, risadas queridas e problemáticas lânguidas que possam passar pela retina da sociedade como impróprio.
Temos por essência arisca um apego a exaltação de nossas falsas magnificiências, vomitar intelectualismo de gaveta e aplaudir ao nosso constante hábito de atribuir-nos virtudes improváveis. O ponto curioso da prática antropológica que cada ser humano acaricia é esse tal desespero para manter-se dentro de hegemônia conservadora. Os julgamentos fulminantes que levitamos entre as bocas sujas perante ao outro, não é nada mais, nada menos, que uma mania violenta de enraivecer as estruturas pelo orgulho de julgar a si mesmo como mais um belo exemplar do sistema. A auto afirmação sempre foi um prato perigoso para incinerar mentes abertas em campos afastados enquanto tême-se a matança da máscara que cobre o infectado coração humano. Mergulhamos entre febres de luxúria, fermentação da cobiça, idolatria irracional ao insulto, amor aos julgamentos exagerados aos outros, que valorizem ao próprio reflexo, falta de compaixão aos momentos ingratos das personalidades humanas e principalmente o prazer do hábito da incompreenção. Mergulhar na decadência de agirmos como vermes carniceiros só nos conduz ao morredouro dos nossos presságios. Pisar nessa terra ferida e travar o conhecimento do outro é como fazer com que não exista nenhuma lógica racional em Alguém ter derramado sangue em nossas veias lívidas. Demência desavergonhada, é isso que temos em nossas loucuras mais petrificadas.
Se cada um de nós sentisse ao menos a vontade de refletir um olhar materno perante ao outro, não seriamos tão escravos da estremicida sensação de dissuadir o real sentido de respirar entre as horas mortas desse céu denso. Liberte-se do seu medo encarniçado de descobrir que precisamos em grau de urgência, de um alarme a vulgarização dos nossos sentidos obscuros. Perceba a candura dos olhos das pessoas. Não sinta prazer em pastorear rancores, nem de tatear trevas. Compartilhar amor, não dói. Chega de supertições sociais, de tardia revelação de carinho entre os seres humanos. Apazigue e finalmente deixe de acordar pela metade. Bom dia.

7 comentários:

Amanda B. Dornelles disse...

Gostei do fundo muito psicológico em seus textos, e da maneira como as palavras são gostosas de ler.
Esses temas mais espinhosos e que envolvem muito a complexidade humana, não são muitos os que escrevem, porque pode cair na monotonia textual. Fica o conselho pra uma próxima vez, heheh, mas gostei.

=D
http://educacaoalienista.blogspot.com/

# Érikα Teixeirα disse...

Amei o post, principalmente no finalzinho quando disse: "Compartilhar amor, não dói. "

Karla Hack disse...

Difícil falar sobre a complexidade humana e a forma que expressamos (ou deixamos de expressar) ao longo dos anos...
Acho que cada um vai se moldando aos seus desejos e traumas vividos....
Complicado... Mas gostei muito de seu texto e o tom dele!

;D

Alex Holliwer disse...

Olá, Paula.
Nossa. Gostei bastante de seu texto.
Um assunto sério, abordado de maneira séria e poética. Você realmente obteve sucesso no assunto expressado.

Falta Amor em nossos corações gelados. Mas o nosso Deus é fogo consumidor e o único capaz de aquecer corações. E como Deus é Amor... Posso dizer que está faltando Deus.

Parabéns pelo post e pelo blog. Estou seguindo.
Bjo

Rogerio disse...

Oi, Paula.
Amei seu post e todos os outros que li. Seus textos tem um tom que eu nao encontrava a muito tempo. Voce sem duvida tem o dom de tocar as pessoas com as palavras e isso é uma coisa da qual poucos podem se orgulhar.

beijox!

Anônimo disse...

Sinto falta das tuas palavras neste blog.

Cláudio Max Lobo Galvão disse...

Olá Paula.

Primeiro, é muito bom conhecê-la. Você é especial, e pessoas especiais merecem um lugar especial no coração de quem as conhece. O seu lugar está reservado no meu.
O texto está ótimo e adorei a forma como escreve. A crítica, suas verdades, a filosofia, a psicologia, tudo mais vai sendo colocado de forma agradável, sem agressão ou aspereza.
Pegando o gancho do comentário da Érika, "Compartilhar amor, não dói.", já que este é um comportamento privado, compartilhar, sim, talvez não doa. Mas amar pode doer. Mais que qualquer outra dor, é possível.
O não compartilhar, então, não viria, possívelmente, de boas pessoas que muito amaram e por isso muito sofreram?
De certo, o amor, há no mundo quem não o tenha. Mas de certo, há aqueles que, pelo sofrer e pela dor, aprisionaram o amor no mais profundo calabouço de seus corações.
Mais certo ainda é que todos nós temos a chave para libertá-lo.

Um beijo no fudo do seu coração.

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