quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Let me breath

Fui planejada para nascer em 1992, minha mãe engravidou em um hotel em janeiro.
Nasci como um milagre em um dia vinte e três. No mesmo dia, do mesmo mês que a minha mãe nasceu. A bolsa foi rompida no exato horário do seu nascimento. Tive pouca chance de sobreviver. Era prematura, cabia na palma de uma mão adulta. Tive dificuldade de respirar, mesmo assim já existia uma fome de vida maior do que o mundo entre meus orgãos fraquinhos. Eu queria respirar o mundo. Eu queria viver entre todos vocês por algum motivo divino. Rasparam minha cabeça para passagem de medicamentos, colocaram-me em uma espécie de berço hermético que mantém uma temperatura constante, como um útero. Ainda na incubadora, meus pais conversavam comigo, observando meu coração bater mais rápido por reconhecer aquelas vozes que por sete meses me acompanhavam em fluxo diário. Enquanto a incubadora regulava a minha temperatura corporal, no meu bracinho tinha o nome de menina que me havia sido escolhido. Paula, era assim que as pessoas me chamariam. Entre cinco letras aceitava o meu único rótulo, meu nome. Eu não fui um bebê fácil, sempre tive distúrbios alimentares e de sono.
Passava madrugadas inteiras chorando um choro agúdo, quase insuportável. Eu tinha cólicas agressivas em determinados horários da noite. Por algumas vezes minha mãe pensou em não cuidar de mim, quando o desespero a visitava. Era realmente insuportável estar comigo, quase infernal. Foi preciso a ajuda de uma outra mulher, a Celina, um ser humano magnífico que também havia cuidado do meu pai durante toda a sua infância. Celina é o nome doce que não esquecerei por nenhuma fase da minha vida. A amo com todas as forças, minha infância inteira está guardada com ela. Sempre me envolveu com sua ternura e me protegeu para que eu tivesse uma infância feliz. Sempre me deixou fazer coisas de criança, sujar a casa com massinha, pular na cama, bagunçar o quarto inteiro, ralar joelhos, provar doces novos, rabiscar sua pele, entre milhões de besteirinhas. Me abraçava quando eu chorava, não conseguia me ver triste. Me colocava de castigo quando eu precisava, mas sempre teve uma paciência incrível. Sempre respeitou meus sentimentos, nunca achou que era frescurinha de criança. Confesso que o dia que ela for embora desse mundo, metade da minha história vai com ela. Não superarei fácil, será uma jornada realmente dolorosa. Mas não deve-se dizer essas coisas enquanto a vida ainda está pulsando alguém. Outra coisa que se aprende é que ninguém tem o direito de sufocar um ser humano, nem por amor. Cada ser humano tem a liberdade no sobrenome, Cristo mesmo foi quem deu. Ninguém tem direito de anular as escolhas alheias. Ninguém tem o direito de abrir a boca a respeito do que Deus nos deixou tatuado na alma: Asas. Direito de ser e fazer o que sentir vontade. Ele não é o menino mau em cima do formigueiro. Ele nos ama e deixa claro que onde houver amor, existe Seu nome. Essa mania de só pensar nas coisas que deixamos de fazer pelas pessoas apenas quando elas vão embora é extremamente burra. Vivemos em função dos nossos umbigos e vamos esquecendo que não somos nada sem algumas pessoas incríveis que nos fizeram ser o que somos. Tente pensar menos em você, não é arriscado. Lembre-se que as pessoas sentem, que não há nada no universo pior do que esquecer disso. Aprenda a respeitar o espaço de cada ser humano e a falar mais sobre o quão especiais são para você. Prometo que você não vai escapar ileso, vai aprender o que é amar alguém de verdade.
Amor sem respeito não é amor, amor sem saudade não é amor, amor sem carinho não é amor, amor sem perdão não é amor, amor sem cuidado não é amor, amor sem divisão não é amor.
Sentir o que o outro sente, como se estivesse no seu próprio corpo, isso sim é amar.
Respire e sinta que cada batida do seu coração é um milagre e que passar por essa vida sem aprender o que é amor verdadeiro é a mesma coisa que anular o real motivo de você estar vivo.
Ser é suficiente. Talvez ainda exista a mesma Paulinha dentro da incubadora, precisando lutar para sobreviver, com uma enorme vontade de respirar a vida. E quem se importa?
Ainda escuto as mesmas vozes que atentas estiveram torcendo para que eu conseguisse crescer e nas minhas artérias sinto o Criador fazer meu sangue pulsar, sem permitir que eu pare por um só motivo: Amor.










quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Tantos em uma só

Ninguém É um momento, ninguém É uma profissão, ninguém É um defeito, ninguém É um rótulo, ninguém É uma imagem, ninguém É. Todos nós estamos. Já estive criança, já estive triste, já estive feia, já estive sã, já estive engraçada, já estive grossa, já estive amável, já estive servindo de sonífero, já estive atraente, já estive neta, já estive efusiva, já estive ridícula, já estive interessante, já estive expressando milhares de traços da minha personalidade curiosa dentro e fora de mim. É bobeira julgar todo e qualquer ser humano por momentos. Na real, é bobeira julgar. Em cada ser humano existe um universo totalmente diferente dos demais. Todos nós vivemos vidas diferentes, vemos o mundo de uma maneira diferente. Cada um de nós apresenta um jeito singular de apresentar-se a humanidade. Nunca me preocupei em desvendar o lado que eu mostro para o mundo e o lado que eu escondo dele. Eu gosto de estar dentro de mim, mas não é sempre que como num grito o mundo não me acorda para respirar a beleza do que está fora do meu corpo de garota.
Arranco de mim metade de uma multidão fria e arrisco-me a aprender como devo agir para me ver no outro sem diferenças. Meu foco está no Amor. Tudo que for amor deve ser explorado sem frescura, porque Deus é amor.
É difícil falar de amor para uma sociedade que cada vez evolui negativamente em relação a este sentimento que sempre existiu. É difícil falar do que é bom para um mundo cada vez mais mau e cheio de sí. Em cada canto existe gente nascendo e morrendo sem amor, e muitas dessas pessoas mal sabem que Alguém nasceu e morreu para mostrar o que é amor de verdade. Um soberano fez-se abrigo amigo e desenhista de destinos inacreditáveis. Nunca houve limites para estarmos. Só existe limites para sermos. Metamorfoses crescentes, talvez seja essa a única definição que temos.
Julgamos pessoas como se nós mesmos tivessemos as criado. Cada vez que apontarmos nossos dedos que nada sabem sobre ninguém -arrisco dizer que nem sobre nós mesmos- devemos ir direto a um espelho largo e nítido para percebermos que todos nós somos iguais, que não devemos julgar ninguém, nem a nós mesmos. Às vezes vomitamos atitudes lamentáveis, devemos sim reconhece-las como ruins se não tiverem amor no sobrenome. Porém julga-las é impossível. Nossas personalidades são como um quebra cabeça de milhares de pecinhas formadas por ondas e ondas de fatores que talvez nem estejam em nossas lembranças. Apenas o Criador das nossas almas pode explicar porque agimos de maneiras misteriosas. Não falo de um Deus que muitos de nós pintou como alguém que julga como homem, não como um Deus. Quem somos nós para abrir a boca e dizer que alguém está errado em estar de alguma maneira?
Nada. Ninguém. Menos que poeiras cósmicas.
Permita-se a sentir mais e abrir menos a boca quando criticar toda e qualquer maneira de amar.
Permita-se a parar de vibrar com idas do homem à lua e chorar com quem sente frio, fome e falta de calor humano.
Permita-se a entrar em contato íntimo com Aquele que deu cheiro as flores, cor aos seus olhos e sabor as frutas.
O único ser que É chama-se Cristo. Ele nunca deixará de ser amor.
Nesse aspecto, permita-se a estar sendo melhor,
seja amante do amor.
Seja livremente preso por vontade ao Bem.






segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Abrindo os olhos

Nossos corpos parecem completos, cheios de informações e linguagens que muitas vezes não dominamos.
Ouvidos não possuem pálpebras, você não pode escolher entre não ouvir o que se passa ao redor.
Os olhos possuem toldos que piscam sem parar, parecem nos lembrar que temos a opção de fechar os olhos fundos e esquecer das imagens que nos complementam.
Olhar não significa ver, e às vezes, para enxergar, é preciso um certo olhar difuso, vago, afim de entender.
Muitas vezes escutamos o questionamento:
"Não é injusto um bebê nascer deficiente?"
A resposta sonda a ponta da minha língua com velocidade.
Injusto é o nosso olhar. Injusto é a gente pensar que o corpo é alguma grande evolução. A deficiência está nos nossos olhos, não em quem tem algum tipo de diferença superficial.
Deveriamos nos questionar a respeito da alma, das ações, do quão pequenos somos. Não deveriamos nos revoltar contra os Céus e dizer o quão triste é alguém não ser "perfeito" no externo.
Pior do que essa frase é aquela:
"Não é injusto uns nascerem pobres e outros não?"
Óbvio que é injusto, mas quem criou esse ninho de injustiças?
Quem fez parecer que ter certas matérias é um tipo de marketing pessoal?
Quais seres parecem acordar cada vez mais individualistas e pobres de espírito?
Nós.
Como eu sonho com o dia que todos nós conseguiremos entender que o corpo não é absolutamente nada quando temos um espírito para evoluir.
Não em outras vidas, particularmente não acredito nas mesmas. Acho isso tudo uma grande fuga para não viverem o aqui e o agora e mais uma das manias de encontrarem respostas para o que não possui.
Um profundo mergulho no interno faria cada um de nós conseguir compreender que no simples estão as grandes respostas da humanidade.
A chave do mundo está em um Menino Deus que nasceu para nos ensinar a multiplicar alegrias e dividir tristezas. Sentir o outro, exercitar a imaginação em se perceber o mesmo ser humano ao observar olhos tristes e sorrisos abertos.
É nos seus olhos que eu quero encontrar a minha própria alma, não importa quem seja ou o que faça.
Tudo o que eu quero é amar cada pessoa que nascer entre essa nossa gaiola de loucos.
Se cada um de nós quiser o mesmo, não será apenas fantasia a idéia de um mundo gostoso de acordar.
Todo ano vem com a opção de um novo nascimento.
Que esse novo ano que se aproxima possa nos fazer nascer novamente. Espero que amar cada ser humano que entrar e não entrar em nossas vidas como se fossem nós mesmos, seja o grande objetivo da humanidade. Mesmo dentro de um Sistema porco e plástico, eu acredito que cada alma que aproximar seu coração do Criador, conseguirá melhorar e muito essa humanidade especial e ao mesmo tempo decadente.
Aproveitem os últimos dias de dois mil e nove, mais um ano que não volta mais.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dezembro


As ruas parecem formigueiros, não se fala em outra coisa a não ser presentes. Shoppings enfeitados enquanto a cidade se ilumina de estômagos vazios.
Dinheiro, propagandas, fitas, papai noel, presentes, músicas e cartões prontos.
A irônia parece explodir entre as bolas vermelhas das árvores comerciais.
Amanhã milhares de rostos pela cidade irão negar o sorriso do Aniversariante com deboche enquanto comem ceias rodeadas por parentes distantes e presentes caros quando marcar 00:00 horas.
Amanhã crianças vão andar pelas ruas sem presentes, imaginando que o sentido do natal é justamente ganhar coisas.
Amanhã alguns asilos e orfanatos vão transmitir dor entre olhos sem luz.
Amanhã familiares distantes que só aparecem em velórios e casamentos chegarão na sua casa com sorrisos largos e frases prontas.
Ainda dá tempo de fazer este natal valer a data.
Ainda dá tempo de provocar um sorriso do Menino que é muito mais que um bebê do presépio da sua sala. O Menino cresceu para nos ensinar o Amor.

Ame.





















segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Entre paredes


Trato a mente assim como meus ossos crescem.
Sei que não sou mais menina, mas tenho certeza que não sou mulher o tempo todo.
Observo minhas antigas mãos pequeninas e noto que já não são mais tão pequeninas assim.
Roupas que não cabem mais vestem meus rabiscos mais tardios.
Meu peito acorda uma canção de ninar tão noturna quanto os meus olhos aflitos.
Guardo em malas a minha vontade de voar, pois um dia precisarei das asas molhadas de chuva.
Solto ao vento cada objeto que me remete a lembrança das grades cor-de-grito.
Uma metamorfose apertada na cintura fina, repleta de botões que ligam meu passado ao presente com força uterina.
Cada noite vem com a possibilidade de não abrir o sol. Respeito como ninguém o adormecer e a glória de uma manhã que parece despencar mistério entre as janelas de cada parede.
Ah, como gosto dessa minha mania de ser quem eu sou.
Não que eu seja alguém interessante por demais, longe disso. Algo me faz sorrir quando percebo que se eu não fosse eu, seria um estranho. Alguém que jamais veria a vida com os meus olhos. Poderia ser feliz com menos ou mais facilidade, mas a verdade revela que almas não entram em histórias erradas. Gosto mesmo é dos obstáculos que me fazem crescer.
Arrisque sorrir.

sábado, 28 de novembro de 2009

Lanterna


Não há átomo no cosmo que, ao pressentir a passagem obscura, não fique tomado de espanto pelo pensamento submerso no sereno lunar.
Mais um manto negro aterrisa entre bravas nuvens claras. Enche as mãos de brasas acesas, e
espalha-as sobre a cidade. Sobre os prédios viventes, alí está a minha ímpar curiosidade.
Músicas que parecem sair para dançar começam a denunciar os meios de se existir dentro daquelas janelinhas tão pequenas. Músicas que anseiam. Músicas que afagam. Músicas que chicoteiam. Músicas que apagam. Pelas cortinas talvez existam corações infantis aos pulos, arranhões nos cotovelos da morena de vestido amarelo, sorriso exagerado em um desejo triste de um jornalista hipocondríaco. Uma nostalgia confusa no olhar da loira que acabou de fazer quarenta e nove anos. Quem sabe por alí brotem problemas que você muitas vezes poderia calar por ouvir. Quem sabe por ai não hajam mortes para evitar. Quem sabe logo aqui não existam vidas para afagar.
Ali, logo no asfalto. Vocês não estão vendo? não?
Eu mostro. Existe uma velhinha sentindo frio. Do outro lado na esquina, olha lá! basta olhar bem... existe um andarilho faminto, cheio de vontade de encontrar um lar. Será que todos nós não nascemos com a origem do bem?
Bem, na realidade não. Fiz dela o meu sobrenome assim que notei a escuridão que havia em mim antes de encontrar a Luz matinal.
Você já foi a um orfanato?
Você já foi a um asilo?
Se foi, será que alguma vez você já se importou em entrar com um sorriso e vontade de dar um abraço sincero?
Quantas pessoas sorririam se você quisesse dar o mínimo de . Ainda dá tempo do dia abrir amanhã.
Mas e o seu vizinho?! é, aquele mesmo que faz a maior barulheira. Será que um 'bom dia' menos falso e pessoal poderia acontecer as oito horas da manhã?
É certo que em algum lugar a bondade aflora solta e desavergonhada, prontificada para ser apenas o que é. Quando a multidão se indivualiza em secretos livres, posso ver pela janela o sol a pedir licença pra se pôr em tua figura, como única radiante razão aveludada.
Refém amontoada que sou de um passado que passa. Aguço o senso do sentir o outro, e basta.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Voe Livre


Acordei sentindo a sua falta. De alguma maneira, sinto que você está dentro de mim todos os dias. Só queria poder dizer que a maneira presente que a sua ausência se apresenta ainda dói. Eu sei que você está feliz, anjo. Só pode estar. Jamais deixarei de pensar em você.

Eu te amo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Entrelinhas



"Não é porque eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo
Nem mesmo por que eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema
Não é por que não acho o papel onde anotei o telefone que estou precisando
Nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando
Não é por que fui mal na prova de geometria e periga d'eu repetir de ano
Nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina
Não é por que tá muito frio, não é por que tá muito calor
(...)
Se a fé remove até montanhas, o desejo é o que torna o irreal possível
Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando. "

(Nando Reis - O mundo ficaria completo com você)





Marcar sempre foi o seu principal objetivo na vida. Sempre levou um lema embrulhado nas suas artérias. Paula percorria as esquinas de cada rosto com vontade de rabiscar uma lembrança ao seu teor. Todo o delinear de existência a encantava. Existia um prazer secreto em observar milhares de pessoas tão diferentes todos os dias. Parece que ela gosta de tentar adivinhar as histórias por trás daqueles semblantes corriqueiros. Imagina seus nomes, lembranças, olhares sobre a vida, pratos favoritos, cor das cortinas do quarto, datas de aniversário, prazeres ocultos, últimas doenças, gosto musical, pensamentos sobre o que estão observando, dentre mais um ninho rico de detalhes e informações sobre rostos que ela nunca nem sonhou em ver. Essa tal mania de querer fazer parte, sempre foi vertiginosamente insistente e até mesmo corrosiva. Sua timidez sempre demonstrou-se como uma grande pintura negra sobre a tela alva, capaz de paralisar instantes entre seus pensamentos mais correntes. Ela parecia captar uma visão sobre o mundo que mais ninguém poderia ter. Num rapto intuitivo aprendeu um jeito de mudar vidas sem precisar ser notada com uma arte peculiar que mais parece o seu meio de sobreviver dentro de si mesma: Escrevendo.
Paula irá revelar agora mesmo uma das sua secretas manias.
A escrita fazia Paula molhar os dedos dentro da sua alma irreverente, absorver cada palavra solta e presa aos seus devaneios. Pulava em abismos de sensações inexprimíveis e deitava sobre um campo de margaridas com a calmaria do vento. Com tudo o que nela havia de silencioso e inefável, sentiu que poderia mudar rumos por alterar rotinas em cortes sucessivos de planos conceituais. Como quase todas as escolhas nos oferecem cinqüenta por cento de chance de dar certo, Paula arriscava a mutável experiência do cotidiano em provocar risadas e reflexões sublinhadas em semblantes aleatórios por troco de nada além do seu prazer de tentar mudar histórias. Paula escreve em papeis por toda parte, deixa em mesas de shoppings, janelas de ônibus, cadeiras de hospitais, porta-copos de cinema, caixas postais, carrinhos de supermercado e até mesmo em lixos, mensagens para quem ler, ler por conta própria e auto-risco. O teor de cada uma dessas folhas está na originalidade do recente. Divulga pensamentos íntimos a respeito da vida, e implora para que as pessoas vivam mais, vivam melhor.
Quem lê pensa: Essa garota certamente deve ser perturbada, no mínimo carente.
Mas na verdade, há quem diga que ela é uma grande sonhadora. Sonha em abrir mentes, quebrar cadeias e confortar corações de todos os tipos e origens. Quem sabe até um dia consiga ser uma grande psicóloga. Tá, nem precisa ser grande. Mas se for uma psicóloga capaz de melhorar uma única vida, já terá sido o suficiente para que leve dentro do seu peito um grande afago interno. Paula ama a mente humana como quem é capaz de dedicar toda a sua vida a entendê-la, mesmo sabendo que jamais seria capaz de decifrar tantos sentimentos particulares e cargas genéticas.
Paula fechou a porta do seu quarto, por um momento resolveu mudar a própria vida.
Às vezes pega atalhos, toma banhos frios, mergulha, come outros pratos só para saber como teria sido.
Se ela pudesse dar um só conselho para cada pessoa que conhece seria:
Ame as entrelinhas, porque são delas que se sente falta, porque, no fundo, são elas que nos fazem apaixonar pela vida, que nos fascinam sem que tenhamos consciência disso.
Entrelinhas estas que baseiam-se em apenas ser uma caricatura inesperada para uma criança desconhecida, um sorriso a um mendigo, uma flor a uma velhinha cansada, um chocolate no bolso de uma senhora irritada, um assunto diferente no elevador, um elogio espontâneo, um abraço verdadeiro, um bom dia cheio de impacto expressando a real vontade de que a pessoa tenha um dia coberto por momentos amáveis.
As Entrelinhas podem mudar destinos. O cafézinho do taxista, a manchinha de pasta de dente na blusa, o corte novo de cabelo, a coleira apertada do cãozinho, a mosca no vidro do carro, o relógio parado da cozinha e uma palavra que seja, podem salvar vidas e alterar uma ordem mundial.

Quando Paula sente que faz bem para alguém, não importa o que ocorra. Ela sempre está em paz dentro de si mesma. Nem a maior tempestade pode fazer com que seus sonhos escorram entre os dedos. Ela tem força, dedicação e o principal: O amor.































segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Hoje no calendário futuro

Calendários sempre tiveram o poder de me assustar. Detesto marcar os dias com caneta, sinto-me contando a vida até o dia que uma janelinha ficar sem nenhum vestígio de cor, levando mais todos os pequenos quadrados numerados com uma marca de luto particular. Não arranco as páginas, ainda faço questão de olhar para elas forçando a memória para lembrar de cada dia.
Sempre guardei datas como quem guarda jóias valiosas. Não me perguntem o motivo, não saberia responder. Mas arrisco em comentar que deve ser para não me perder na minha própria natureza amante das memórias detalhadas. Quando começo a pensar nos fatos ao meu redor, certos lampejos dos mais derivados sentimentos misturam-se ao ponto de me fazerem perder o silêncio. Quando paro absorta em uma tempestade de desmotivações, observo o que é molhado por ela. Ali vejo uma margaridinha crescendo no cantinho do asfalto, um gatinho solitário olhando para um homem como se o reconhece-se, a aeromoça cansada sentada em um banquinho colorido da cafeteria, com um olhar nervoso por respingos do toldo estarem caindo sobre o seu ombro direito, janelas de todos os tipos de vida passando uma energia singular, um adolescente preocupado com o cabelo, o mendigo sorrir enquanto o cachorro malhado deita em seu colo, uma cega com uma rosa branca de cetim no cabelo amarelado como o seu labrador, uma mãe apertando os passos por causa do bebê do carrinho azul marinho, a hipponga ruiva do bairro procurando a chave em sua grande bolsa verde cheia de chaveiros grandes e chamativos, crianças com vestidinhos adultos, carros coloridos correndo rápido para os seus destinos. Paro, reflito, sonho e confirmo as motivações espontâneas que tomei num grito. Consigo encontrar cor até nas mais cinzas das metrópoles agora que o dia chama-se liberdade. Como é gostoso olhar a vida ao redor e identificar-se com os mais derivados tipos de ações urbanas. Muitas vezes abafados pelo sentimento engasgado de sentir a dor do próprio umbigo, não sentimos facilidade de fixar os olhos nos fatos e lembranças sobre as emoções que nos fazem bem para diminuir o caos interno. Nenhuma porta é fechada enquanto não houver uma janela aberta. Devo dizer que pela primeira vez pude ter certeza dessa frase. Aprendi que não adianta procurar a janela apoiando os braços sobre a mesa com olhos marejados. É preciso explorar o ambiente com os olhos famintos por intensidade. Posso sentir o manto verde da esperança e a mordida vermelha da motivação entrarem pelas cortinas abertas do meu quarto de garota, com uma única diferença : A própria diferença. Não por uma questão de 'profundidade filosófica', mas a singularidade desse momento é totalmente indescritível. Mas esperem os dias virem enquanto as noites vão embora, talvez possam me ver 'Descrevendo o indescritível'.
A volta do prazer de não ter que buscar esconderijo ao lembrar do tempo que sorria melhor pelo simples fato de já estar sorrindo o sorriso mais aberto de todos os verões cariocas:
A realidade futura será melhor do que todos os meus sonhos e lembranças no que depender da minha gritante e inefável vontade de viver livre e presa por vontade.
Agora o meu céu anuncia um azul convidativo, o qual a tempestade já lavou enquanto pintava um arco-íris vivo para me fazer lembrar de que a vida é surpreendente quase sempre.






Os olhos mudavam de cor ao suspirar. A felicidade era explícita, os momentos não tinham fim. Ela se sentia frente à frente aos seus sonhos mais impossíveis. O tempo parecia pausar junto com a sua respiração. Por trás dos olhos castanhos existiam sentimentos que devoravam sua capacidade de expressão. Seus mistérios se dissolviam na escuridão dos seus maiores medos. Ele sabia como a manter feliz. Já se fazia muito tempo que não surgia um sorriso confiável em seus lábios. A suave coloração pela face não a permitia um esconderijo. E quer saber? Ela não queria mais se esconder. Ela queria que o tempo não existisse. Ela só quer viver sem pausas agora que O conhece... Quando o sol penetrava na sua pele pálida, conseguia sentir um instante de volúpia. Ela tinha outro dia dentro da sua eternidade interna. Andava livre, leve e solta. Sorria sem mais nem menos. Ela amava viver. Ela ama.
Agora ela tem um motivo. E que motivo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Manhã carioca.





Ah, esses meus ponteiros...

Hoje acordei lembrando-me da gaveta que guardo minhas blusas preferidas. Junto a ela tenho caixinhas com mechas dos fios dourados do meu cabelo da infância, perfumes antigos em algodões e em frascos pequenos, conchinhas que achei em praias diferentes com seus respectivos nomes sobre a face funda, borrachinhas que nunca acabaram, páginas antigas de diários que abandonei com o tempo, velas de aniversário, posters especiais que já foram selados na porta dos armários que tive, entre um infinito de coisas que só possuem um significado para mim. Todas reúnem fatores que aguçam os meus sentidos mais singulares: lembram-me o mar, me enchem a vida de um odor mágico e de uma canção maravilhosa.

Poucas pessoas importam-se em guardar seu passado distante, pois eu faço questão. Guardo em fotos, filmagens, pensamentos, sentidos e até mesmo em gavetas.

De pronto soube, eu queria ter um dia bom, desses que eu gostaria de lembrar no futuro.

Mas como?! hoje é domingo, preciso fazer um trabalho para amanhã, está um calor de quarenta e muitos graus no Rio de Janeiro, meu cabelo está péssimo e não me encontro em um momento de alegria aparente. Cara, preciso falar do calor mais uma vez. Eu não estou suportando, acho que nunca passei por dias tão desesperadamente quentes. Não está humano, não está. Pronto, falei.

De qualquer maneira, eu tentaria ter um dia bom.

Sempre me liguei muito aos detalhes, as pequenas coisas que me faziam sorrir. Minha infância sempre foi um prato cheio para me arrancar sorrisos sinceros. Não foi diferente. Arrisquei-me a lembrar de coisas que jamais lembraria se não fosse forçar a memória, assim consegui.

Lembrei-me do rosto do velhinho que vendia algodão doce na porta do colégio que estudei aos cinco anos.

Lembrei-me da minha mania de apresentar bonecas novas as antigas bonecas do quarto.

Lembrei-me de estender os pés no tapete separando todos os dedos ao tomar meu picolé favorito: Limão.

Lembrei de observar a minha babá dormir e pensar "Tomara que amanhã ela queira brincar de esconde-esconde comigo."

Lembrei-me de passar as mãos na cortina e de sentir a textura lembrar a calça jeans do meu pai.

Lembrei-me de tomar banho tentando não molhar a parte do braço onde minha mãe havia deixado uma marquinha de batom bordô.

Lembrei-me de deitar na rede com um laser vermelho apontando para varandas alheias

Lembrei de passar o último olhar em todas as casas que tive que deixar e dar adeus aos meus amigos de estados diferentes com o rosto paralisado, como quem não aguenta mais não saber de onde é, para onde vai, com quem vai estar. Corria para chorar escondida, mas dois minutos depois eu corria para rir entre os outros.

Lembrei-me de não gostar da parte que cantavam "Com quem será?" nas minha festas infantis. Sempre inventavam um nome de garoto completamente sem sentido, pareciam saber junto comigo que a minha infância foi muito solitária nesse aspecto. Por isso respondia esboçando um sorriso triste observando a vela, louca para fazer um pedido novo.

Lembrei-me de fazer corrida de gotinhas no vidro do carro no dia que eu fui mordida por um cachorro e senti medo do meu rosto ficar deformado.

Sempre fui tímida, poucas pessoas sabem disso. O humor é uma forma de agredir, uma forma de mostrar que nem sempre você está pronto para falar de si mesmo. Com isso, faço questão de usa-lo todos os dias.

Só que hoje eu precisava como nunca de uma dose enorme de humor.

Resolvi molhar os pés na piscina, tomar banho cantando "Solta o Frango", desenhar uma margarida no box, quebrar a rotina secando-me com uma toalha, comprei uma escova de dentes nova, deitei na cama para fazer carinho na Samantha tentando encontrar desenhos no céu. Não bastou. Resolvi pensar no futuro e estranhamente ele me pareceu bom. Bastou dessa vez.

Sabem por que?

Porque eu não sei ser infeliz, nem mesmo quando tudo tenta me fazer estar.

Eu sou um exército de detalhes que nunca vão morrer por cair no esquecimento.

Mas o melhor de tudo é que os ponteiros do relógio estão correndo, dezembros chegam sem parar e a vida me apresentará muitas causas para sorrir. Muitas.

Que os novos detalhes me cheguem apurados aos sentidos e que os velhos sejam como tatuagens de grande porte pela alma.


Bom dia para vocês.

(Não sei por qual motivo escrevi esse texto.)