terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sobre meu velho vício de sonhar.


Fechar os olhos parece-me louco, denso e devastador. Penso, desejo, fujo, conspiro, corro, existo e morro num só grito. Meus sonhos precisavam de uma dose de acesso a lucidez, não é que eu não acredite na força dos meus sonhos é que a realidade sempre andou pesando muito aos meus passos incertos. Há almas que gelam perante a futura possibilidade do impossível e simplesmente sofrem por antecipação, assim, sem querer. Aprendi a ter menos medo de tudo que faço, sinto, penso, digo e sou. Cada passo é o caminho de uma nova viagem. Um dia desses li um livro que comparava a vida a uma viagem de trem. A nossa vida é como uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques, de pequenos acidentes pelo caminho, de surpresas agradáveis com alguns embarques e de tristezas com os desembarques. Quando nascemos, ao embarcarmos nesse misterioso ambiente, que simplesmente nos leva para todos os cantos a partir do momento que abrimos os olhos ao mundo e estamos fora do ventre das nossas mães. Entre a inocência da infância e a compostura da maturidade, há uma deliciosa criatura chamada adolescer. Nasci para ser uma das incógnitas da vida. Estou sempre tentando dar sentido ao sem sentido, falando do impronunciável, sentindo o que apenas eu posso sentir. Não sou criança, não sou mulher. Não sou nada, mas sou o meu tudo. Gostaria de ler pensamentos, pra saber o que as pessoas pensam, quais suas aflições e também saber se habito seus pensamentos em alguma parte do dia, assim como habitam os meus. Quando fecho as cortinas do meu quarto alaranjado, eu escuto os meus pensamentos guiarem-me para longe de mim, apenas por um momento, sinto que alí não sou mais eu. Parece que de repente deparo-me com a menina dos meus olhos sem cor definida e desgoverno-me em delírios, sussuros, devaneios e nostalgia de um futuro bom. Como pode-se sentir saudade de um tempo que nunca nos fitou os pés?
Não saberia responder, mas quando fecho os olhos nada aplica-se a normalidade das coisas vivientes, alí eu abro os braços e crio asas. Tenho passado, presente e futuro em um só sorriso noturno. Parece que não, mas eu sei dos perigos. Lá onde o inconsciente explode sem disfarces, conspirou-me em perfeito segredo, para dar voz a minha loucura, abrindo-me traumas infantis e imagens violetas. Se um trauma tivesse uma cor, ela seria o vermelho. O vermelho estava a nível consciente, predominando todas as emoções que me parecem possíveis. A dualidade da consciência fez-me relaxar trancando meus medos em uma gaveta bem empoeirada bem longe das percepções.
O Pensamento é extremamente intrigante, só você sabe o que pensa. Não é incrível? é uma corrente tão livre que as vezes sinto-me boba de rir os meus próprios comentários. Não suporto ter uma só mente para pensar na vida, queria ser uma multidão, talvez fosse menos atordoada. Sua voz é como um carma em sí mesmo, fala, fala, fala... sem que seja preciso sair um único som. Sempre disse que quem não gosta de estar dentro de sí é porque de alguma maneira tem razão de não estar. Mesmo que em alguns momentos eu tenha vontade de fugir da mesmisse de ter que pensar demais, dentro dessa mesma mente feminina (ou talvez não tão feminina assim) eu gosto de ser a pessoa que eu me tornei. É estranho imaginar que você é um conjunto de pensamentos, nada mais. Tudo o que você é, é decorrente do modo que você pensa e do que diziam para você na infância, na formação do Ego. Sonho e pensamento não são opostos, mas sempre precisam estar juntos. Para não pensar nisso, tenho fixado-me de modo irrevogável em um sonho distante aos meus pés e íntimo ao meu coração irracional.
Chame-o de liberdade.

10 comentários:

Ivan disse...

eu acho que eu penso demais.
as vezes até desejo parar de pensar. mas desejando parar de pensar, eu acabo pensando, e percebo que não pensar seria pior. confuso. heh.

Não sei se eu gostaria de ser uma multidão não. não sei se eu ficaria menos atordoado ou se morreria maluco.

mas enfim. gostei do texto :)

Thyago disse...

Em primeiro lugar, eu adoro como você brinca de enumerar palavras aparentemente desconexas... Imagino como devem ser seus pensamentos...

Quando você falou de trem eu me lembrei do meu filme favorito (Antes do Amanhecer), no qual os personagens se conhecem num trem...

Não vou tentar comentar as partes do seu texto dessa vez pq seria um pecado... Mas uma outra parte que me chamou atenção é a questão de que você gostaria de ler pensamentos. Deixa de ser clone... u.u

E, by the way, eu sempre senti nostalgia do futuro... mas achei que isso fosse loucura minha o.o

E eu sou terrível pra falar de traumas dos outros, mas você tem alguns? o.o

"Eu gosto de ser a pessoa que eu me tornei."... preciso comentar? xDDD

"É estranho imaginar que você é um conjunto de pensamentos, nada mais." E eu diria que você é um conjunto de pensamentos que são desejos... sejam desejos de saber, desejos de entender, desejos de ver, de destruir, de ouvir, de mudar, de tocar, de fazer...

Acabei comentando várias partes... enfim, desculpa =/

Michelle Lima Simões disse...

Adorei. O pensamento, pra mim, é o maquinista do trem.

Diana M. disse...

A crise do pensamento incessante, isso me soa familiar rs
Pensar é o que nos diferencia dos demais e ao menos é a ferramente que todos possuem. Esse grilinho que range todos os dias (onde por certas vezes temos desejo de esmaga-lo) é a nossa única certeza. Já que Penso, logo existo.

Sophia Costa disse...

NOSSAAA!!! Adorei seu texto!! Vc escreve muitissimo bem! Adicionei vc aos meus favoritos!

se quiser dps visita meu blog
http://pensologodigito.wordpress.com

Nanda disse...

"É estranho imaginar que você é um conjunto de pensamentos, nada mais."
Paulinha, acha isso pouco?
Eu acho coisa demais, até. :P

Rafael Belo disse...

Paulinha "Máxima"! Insurgente líder de si. Arrebatador texto, bela. TE selei lá do lado esquerdo do meu espaço. FAlei sobre trens em uma poesia tempos destes... É um ótima metáfora. "Sempre disse que quem não gosta de estar dentro de sí é porque de alguma maneira tem razão de não estar." Sintonia de pensamentos e sonhos. Toda esta liberdade me lembrou uma certa prisão em meu postado miniconto "Simples Motivo". beijos

Confiança num dia após o outro disse...

É triste sonhar e não poder realizar os sonhos, é o velho vício de sonhar, mas sem sonhos não há ponto de partida.
Lembra de mim? stete? bjus paulinha, ótimas reflexões. ótimo texto.

Ricardo disse...

Enorme talento pra escrever, sábios pensamentos.

Alle Snave disse...

Pra não me perder na euforia de tantas palavras e pensamentos que eu SABIA que iria me identificar, comecei a ler esse texto calmamente e em voz alta. De repente não era mais a minha voz que eu sentia sair dos meus lábios, e sim a sua. Não nos vemos a tanto tempo que achava que não conseguiria lembrar da sua voz, mas quando leio suas composições consigo ouvi-la nitidamente. Você não precisa estar nos meus pensamentos para saber que eu penso constantemente em você. Parece meio estranho dizer isso, porque não nos falamos tanto assim... mas acho que penso em você todo dia.

Estou amando esse seu blog. Vou colocar o link no meu okay?
Se não se lembra quem eu sou, dá uma passada na minha página que você vai saber.
Beijos!
Saudades!

Postar um comentário