sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Bagagem



Tudo começa dentro de um silêncio uterino.
Água quente. Emoções externas. Cordão umbilical. Coração denunciando cento e sessenta batimentos por minuto. Corpo em formação, casca em pleno desenvolvimento. Capacidade de emocionar seres humanos antes mesmo de abrir os olhos. Sapatinhos dentro do armário. Roupinhas em cima da cama. Sorrisos pela casa. Cheiro de bichinho de pelúcia. Mãos sobre a barriga antes de dormir. Móbile tocando para o berço vazio. Movimentos simples vistos como milagre em ultrassonografias. Vestidos para grávidas. Lista de nomes para bebês. Dor nas costas. Enjoô. Depressão. Felicidade. Sentimento inexplicável. Medo. Responsabilidade. Mudança do corpo. Seios produzindo leite. Chupetas e mamadeiras. Paninhos e tapetes coloridos. Cadeirinha vazia no banco de trás do carro. Carrinho no meio da sala. Idealização do filho perfeito que muito provavelmente não será como sonharam que fosse ser.
Antes mesmo de nascermos, mudamos o mundo ao nosso redor. E principalmente formamos o nascimento de pais. A maioria deles nasce com um amor sufocante e incondicional por nós. Alguns não. Alguns nem sequer foram amados durante a gestação, quem dirá durante a infância, podendo então não conseguir passar amor aquele ser que deveria ser visto como o maior presente do Criador. Vítimas de vítimas. Querendo ou não, aos nove meses ou antes, a bolsa rompe. Água quente escorre entre as pernas maternas, corações aceleram os ritmos cardíacos, contrações uterinas começam a apressar os passos e ali está a hora que a natureza nos acorda de um sono puro. A partir dali nunca mais conseguiríamos nos imaginar não existindo.
O choro domina o ambiente, o cordão umbilical é rompido. A nova criatura contrai e expande os pulmões pela primeira vez. Luzes, toques, pessoas e vozes altas.
Entregam a criatura a mãe e ali e ela reconhece aquela voz tão doce que por tantas vezes durante o banho, caminhadas pela rua, no trabalho, fazendo coisas simples e ao deitar na cama, chorou, riu, comeu pratos que não gostava pelo fortalecimento do feto, conversou com ele, cantou melodias e contou contos. Mesmo com um "rostinho de joelho" escutou aquela frase: "Mas como você é lindo..."
O bebê procura os seios da mãe e ali alimenta-se de todos os nutrientes necessários para o seu devido crescimento.
Após alguns dias no hospital cercado de visitas, presentinhos e sorrisos inflados chega finalmente a hora de ir para o lugar onde irá virar o seu primeiro universo: Sua casa.
A mãe sente medo. Em casa não terá os tratamentos hospitalares necessários para o bebê e para ela caso necessitem. Terá que trocar fraldas, passar noites em claro, dar banhos, esterilizar chupetas, brinquedos e mamadeiras sempre que caírem no chão. Amamentar em horários estranhos. Tudo isso recuperando-se do parto e da mudança brusca de não ter mais aquele serzinho movimentando-se dentro de si. Agora ele estava em seus braços, sobre a sua responsabilidade.
Mesmo assim respira forte, coloca a criança na cadeirinha do banco de trás do carro. Vai atrás com ele para garantir que nada irá lhe acontecer. O carro vai seguindo lentamente, o medo de perder aquela vida é absurdo. Mas ao mesmo tempo uma emoção inexplicável lhe toca a alma. Era a hora de apresentar o quartinho que por tantas noites entrou com lágrimas nos olhos e sorrisos surreais. Quarto cheio de cuidados. Cortina delicada, brinquedos coloridos, detalhes amáveis e acolhedores. Agora o quartinho tem o cheiro daquele bebê, que com o tempo emocionará seus pais com engatinhadas, olhares, sorrisos, toques, primeiros passos, palavras e expressões.
Os dias passam, os meses passam, os anos passam. Ali está a melhor fase da vida humana:
A Infância.
Na bagagem da infância levamos as lembranças mais incríveis e às vezes as mais traumatizantes. Um amontoado de momentos nos invade a memória e começa a nos selecionar uma coleção de cenas: Dedo no bolo de aniversário, brincadeiras secretas, lágrimas sinceras e sorrisos repentinos, tapas dos pais, natal, óvos de páscoa, músicas animadoras, janelas, pensamentos engraçados, castigos, amigos imaginários, padaria, zoológico, praia, brinquedos singularmente especiais, manias particulares, meias coloridas, horror a perder os pais de vista em shoppings e dentro de carrinhos de super mercado, banhos com desenhos no box, flores do jardim, pesadelos, medo da morte dos pais, sonhos, pessoas que nos fizeram mal, gostar do amiguinho da escola que não te dá a mínima, pulos na cama, programas e filmes rotineiros, pipoca no tapete, cheiro de sorvete, chocolate entre os dedos, boca melada de algodão doce, danças malucas pelo corredor, perigos na rede, festinhas de aniversário inesquecíveis, balas na hora do almoço, abraços, gostar de pessoas que olham nos olhos e falam baixo, biscoitos favoritos, mochila da escola, perfume dos professores, desenhos espalhados pela sala, broncas por bagunçar o quarto, amigos verdadeiros (...)
Entre inúmeras lembranças completamente particulares para cada ser existente.
A bagagem das nossas fases fazem com que sejamos as pessoas que somos hoje.
Parte-me a alma saber que muitas crianças são abandonadas por seus pais e ao mesmo tempo surpreendo-me em sentir que posso amar uma criança como se ela tivesse saído de dentro de mim. A criança é a personificação da pureza, da espontâneadade, sinceridade, da real alegria e do coração de Cristo.
Ainda que seus pais te abandonem, ou esfriem o que sentem por você demonstrando entre palavras ásperas, tapas absurdos, castigos sem necessidade, falta de comunicação e falta de carinho lembre-se de apenas uma frase daquele que deu a cor céu:
"De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei", Hebreus 13.5

3 comentários:

Diana M. disse...

Conforto. Muitas vezes não é uterino, mas vem de braços e palavras mornas, aconchegantes como um útero que nos empurra pra claridade. Obrigada por sua palavras gêmea, os dias andam difíceis por aqui. Mas, tudo passa.

Thyago disse...

O mais importante é mesmo que ele nunca vai te abandonar... e que ele mandou pessoas pra te acompanharem... o resto a gente vai tentando resolver com o tempo.

E btw, eu sempre morri de medo de perder meus pais de vista no shopping e no mercado xD

=***

Luciana Andrade (/starscanfade) disse...

Nossa que texto forte!!! passei aqui de bobeira, vi que estava no blog de uma amiga sendo indicada.
Gostei muito do modo que retrata a înfância, os sentimentos do nosso dia-a-dia. Sabe gerenciar as palavras, ein mocinha?!
Quantos anos tem mesmo? hahahaha
brincadeirinha, vi a data aqui no blog. Não diria nunca que és de 92, meus parabéns.
Quando resolver escrever um livro...
estarei na fila hahahahaha
abração

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