sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Acorda, Alice!

O quarto parece abraçar seus olhos ainda com vestígios de maquiagem escura.
O lápis escorre, a respiração começa a pousar profunda pelo travesseiro.
Ela resolve fechar as pálpebras em silêncio, após a sua oração de agradecimento pelo sol que abre-se todo dia pela janela após as noites tão escuras, porém estreladas do Rio de Janeiro.
Paula adora agradecer a Deus por ter a criado, ela nem precisava existir. Nossa, como o mundo é gigante. Quantas milhões de pessoas poderiam muito bem ocupar o espaço dela no mundo. O que é um grão de areia quando se tem a praia inteira?
Mas não, Ele a escolheu. Isso sempre fez Paula suspirar emocionada. É raro para ela sentir-se tão especial, e quem a soprava no ouvido todas as vezes que ela via o sol, era Ele. O Criador do universo. Quando seus sonhos a tiravam para dançar, ela sentia-se como quem desaparece por horas. No início dos sonhos observa atenta e inofensiva a realidade transformando-se em memórias borradas, fotos fora de foco e lugares longínquos. Mais uma coleção de cicatrizes e tatuagens artísticas e elaboradas o seu inconsciente pinta sobre a tela, revelando-a entre recortes coloridos, cheios de significados fortes o seu complexo psíquico, o qual parece conseguir leva-la para longe do mundo, a entregando espiritual em uma cena de esfera latente, praticamente insondável, misteriosa, obscura de onde brotariam as lembranças minimalistas, o medo, os sinais, a criatividade, a vida e a morte. Paula adora acordar e escrever tudo o que lembra dos seus sonhos. Dessa forma ela sente-se como quem está mais próxima do que está sentindo. Paula tem medo para onde irão as suas tralhas, os seus cristais, as suas lembranças. A simples idéia de que tudo que ela passou irá ficar para trás em um país distante, perdido nos confins de uma memória incerta, sujeito ao esquecimento a fazia pensar sobre o quão breve era o seu sorriso entre as manhãs terrestres. Será que vocês lembrariam dela? O que será que pensaria quando o relógio continuasse sem ela?
Todas as novelas começando a renovar durante os anos, os filmes que certamente ela adoraria ter tido a chance de ver entrando e saindo dos cinemas, as árvores rotineiras do natal dentro dos shoppings que ela frequentava, as novas músicas, All Stars com modelos chamativos nas vitrines, livros dos seus escritores favoritos nas Bienais, as tragédias mundiais acontecendo sem a sua voz, sem o seu olhar dentre milhares de coisas que provocam reações diversas em seu rosto que a terra apagaria. Será que alguém prestaria atenção nisso na mesma proporção do quanto a vida perto das poucas pessoas que ama lhe faria falta?
Paula sabe muito bem que nunca será um ser humano exemplar, mas uma amiga exemplar ela sempre tentou ser. Ela é como a mão de uma mãe para um filho que precisa atravessar a rua.
Ela não solta enquanto ele precisar dela. Paula gosta de lembrar sempre que pode de que é confiável. É gostoso porque para ela isso sempre foi raro, ela sempre decepcionava-se com a confiança que por culpa dela, depositava nas pessoas que pareciam acolhedoras. Era bom sentir-se pura sobre uma coisa na vida, sentir-se como uma boa pessoa quando o tema é ser leal aos seus. O tempo nos ocupa tanto que a gente esquece que a vida é breve e assustadora quando quer acabar com as nossas horas restantes. Ainda dá tempo para amar cada ser humano que ainda não se foi, de ser confiável e de confiar, ainda dá tempo de não ter que dizer: "Poxa, eu deixei de dizer tantas coisas..."
Com o tempo Paula aprendeu a não depositar no outro o papel de cobrir os seus abismos, seus vazios existências ecoantes. Mas com o tempo Paula aprendeu que o casulo é necessário. Ela não saberia ser uma lagarta sem graça, com aquele aspecto de verme por toda a vida. O casulo a fez sentir dor, debater-se, debater-se e debater-se para tentar sair dali. Até que percebeu que quem faz isso é o tempo, a natureza. A vida de casulo é necessária para que tenhamos uma vida de borboleta. E isso acontece em qualquer tempo, com qualquer idade: um mês de gestação, sete meses de gestação, dois anos de vida, quinze anos de vida, trinta e três anos de vida, setenta anos de vida... alguns de nós nunca consegue atingir a vida de borboleta.
Paula aprendeu a sonhar, a voltar a sorrir depois de uma tempestade agressiva. Alguma coisa chamada Liberdade a fazia sorrir como sorria quando criança. Ela já não precisava pensar na clássica fala dos filmes americanos: "Maybe I'll find home away from home,Will I ever know?"
Ela já tinha o caminho de casa, já sabia onde ele era. Como chamava-se.
Ele a levou para Casa.

3 comentários:

Thyago disse...

Eu confio em você =)

Anônimo disse...

Lindo texto!
Eliane

Anônimo disse...

nossa,
Nunca vi um texto tão expressivo, tão animador e encorajador.
Vc realmente tem a essencia.
Vc sim é uma escritora de verdade.
Parabéns!
Amei o significado do texto e da mensagem q ele nos passa!
=*
Lady K.

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