segunda-feira, 15 de março de 2010

Transformando o caos em cosmos.

Interpretar-se exige o desvestimento das falsas roupagens. Portas abertas para distanciar-se da realidade cotidiana externa, só por esse momento. Manchar a maquiagem, lançar a luz sobre a covardia, desqualificar o poder do esconderijo social e por fim pisar em sólidos empíricos, coligir os mantos em insana vontade de perceber que no centro dos pensamentos existem poderosas pulsões em ebulição inconsciente.
Entre raras, súbitas e violentas explosões das nossas constantes metamorfóses encontramos contradições pertubadoras, capazes de nos levar ao encontro audacioso de nós mesmos. As quais são igualmente necessárias para deslumbrar o intuitivo e projetar o futuro. A força do futuro está no momento presente. O esboço do futuro está no vestígio do passado.
O intuitivo apreende as coisas no seu conjunto e aquilo que atrai é o clima onde elas movem para seus destinos ainda incertos e obscuros. Entre o pensamento e o sentimento ocorre uma incompatibilidade semelhante.
Todo ser tende a realizar o que existe dentro de sua própria natureza pulsante. Como uma tendência instintiva de vivenciar plenamente potencialidades inatas ainda que em germe. Para evoluir, completar-se de algum modo afável.

Coloquei-me em questão por um momento e entre letras, abrirei as cortinas sem representar, sem nariz de palhaço, máscara de bailarina grega ou maquiagem de adolescente fora dos padrões de estética. Penetre a raiz dos meus pensamentos como quiser.

Tenho no peito o peso dos sentimentos fortes e genuínos pelo bem da humanidade o que não significa que não possa ferir ou destruir sem intenção malévola como uma força da natureza. Um vulcão, como descreve Marie-Louise von Franz, onde compara a expressão de afetos do tipo pensamento introvertido aos jatos de lava de um vulcão que não tem culpa de derramar caldos borbulhantes em uma terra frágil.
Apresento-me retraída, calma e silenciosa. Pouco abordável, difícil de compreender porque, digirida por forças brutalmente subjetivas, minhas intenções permanecem ocultas. Gerando enigmas que só podem ser explorados quando lanço luz pelos meus recantos e permito uma aproximação. Quando vista de perto, abro uma personalidade certamente acolhedora, algumas vezes cômica e repleta de desejos por sorrisos provocados por mim. Sou amplamente sensível às impressões provenientes dos objetos, das marcas, das entrelinhas. Fixo os olhos em todos os detalhes como se possuísse internamente uma "placa fotográfica". Gosto de colecionar nostalgias dentro das gavetas. Não tenho nenhum raciocínio diretamente ligado aos números. Letras, filosofia e arte na sua totalidade, conectam-se ao que mais me identifico. Sou atrapalhada, muitas vezes desastrada mas de alguma maneira, tenho suavidade nas coisas que seguro e que guardo. Sou sensível à atmosfera, os ambientes podem mudar rapidamente meu humor. Gosto de seguir pistas, analisar e não tenho medo de ser analisada. Porque de alguma maneira, jamais conseguiriam chegar em um ponto final ao me definir. De alguma maneira, gosto que prestem atenção aos meus sinais. Não existe ponto final quando trata-se da vida de um ser humano. Ninguém nunca vai conseguir SER algo, talvez chegar perto disso, mas de modo abstrato e singular. Gosto de surpreender.
Pareço individualista de primeiro encontro, mas daria a vida por alguém. Quando quebro meu orgulho, sou maleável e fácil de desvendar, mas para quebra-lo, preciso de segurança numerosamente exuberante. Alastro-me em jogos do espírito, gosto mesmo é de me questionar. Criticar cada expressão de descaso com o mundo que brota no meu coração contraditório e muitas vezes hipócrita com a minha amada referência cristã. Devemos ter como objetivo um constante desejo de nos colocarmos a salvo das engrenagens desse sistema opressivo.
Antes de dormir oro por pessoas que nem sei o nome, espero os sonhos chegarem.
Trato meus sonhos como auto descrição da vida psíquica. Encaro a íris dos olhos da minha própria psique sem medo do que posso ver. Já tive sonhos reativos, intuitivos, "grandes e pequenos" (definição de Jung). Irradio de felicidade quando acordo e percebo a delícia de respirar para um novo dia. Pela certeza de ter um anjo tutelar entre meus anelos.
Desdobro-me em profundidade secreta e intensa, mas deleito-me em destronada simplicidade. Ressonho a vontade de ser alguém menos seletiva, por mais que não selecione tanto assim.
Sonho com um mundo sem olhares diferenciados, onde pessoas percebem nos olhos opostos aos seus uma maneira de pintar o céu na terra. Nós não fazemos ideia de como pequenas atitudes singelas podem transformar dias, construir sorrisos e partilhar sofrimentos ávidos. No âmago de nós mesmos abandonamos as relações como quem aprendeu a aproveitar os dons, nessa constante falsa ideologia de troca de favores que dizem que é natural ter-se. Espero de verdade gritar para o mundo que nós não devemos fazer coisas com intuito de receber. Essas nossas armadilhas hábeis e lamentáveis só nos tornam iscas da nossa própria insensatez capitalista e plástica, capaz de deslumbrar um mundo de constante queda espiritual. A mente humana está aberta ao reconhecimento fascinante da nossa conexão tão evidente entre nós mesmos.
Transforme o caos em cosmos, desvende-se.

sábado, 13 de março de 2010

Chega

Cansei tanto, mas tanto.
A sorte é que eu O tenho e Ele sabe o que passa dentro do meu coração.
Se Ele sabe, eu não preciso mais me preocupar. Mesmo assim, dentro de mim corre um grito explosivo que simplesmente precisa sair da boca para tudo. Eu cansei e não existe coisa mais cruel do que não respeitar um sofrimento, do que apontar, do que dizer o que não tem ideia, do que agitar um mar que está calmo. De qualquer maneira, volto a dizer: Jesus conhece as minhas lágrimas, as minhas ações e o meu coração. Espero trazer boas palavras outro dia, hoje simplesmente não dá. Esse é o preço que se paga por se esforçar, por tentar ser uma pessoa melhor. É, mas tudo bem. A melhor coisa que se tem é estar em paz com as próprias atitudes. A verdade é que não dá mais para aturar o peso das palavras desnecessárias. Definitivamente não estou bem. Por hoje basta.

Vertigem


Talvez eu não tenha tido a infância ideal, talvez eu nunca tenha tido uma adolescência voraz e legal de se lembrar. Talvez eu nunca tenha vivido as fases que eu precisava ter vivenciado intensamente. Sempre fui obrigada internamente a crescer muito rápido, não é que eu tenha controlado uma casa, ou tenha tido grandes responsabilidades, não mesmo. Longe disso. No fundo eu sempre me senti adulta. Isso não anula alguns comportamentos típicos de cada idade. A realidade é que sempre me senti diferente e escutei muito a grande maioria das pessoas ao meu redor perceberem o mesmo. Eu não sei até que ponto isso é bom, sei que cresci e continuo não vivendo as idades como elas deveriam ser vivenciadas e isso me preocupa.
Estou cansada de pintar meus quartos vazios. Estou cansada de não me sentir vivendo de verdade. Não é que eu não tenha calma, ou que precise de intermináveis doses de emoções baratas para me sentir bem. Simplesmente quero algo novo, quero uma vida nova. Eu ainda não sei os passos, mas sei que chegará cedo ou tarde.
É tão bom quando a gente sabe onde quer chegar. Eu não quero me arrepender do que eu não vivi apenas segundos antes do coração parar de bater. Eu preciso que isso aconteça em breve, sem espera. Isso não é nenhum convite para uma vida irresponsável, longe disso. É um convite íntimo para aproveitar os detalhes simples com maior atenção. Eu não quero manuais para existir, eu não quero receitas de bolo. Eu quero estar comigo, eu quero aproveitar o tempo que eu tenho perto de mim mesma. Quero rir o meu riso, quero ser fiel aos meus sentimentos. Quero poder driblar perigos e deitar na paz interna que só a gente sabe onde encontrar. Encontro essa paz em Cristo, muitas vezes no sorriso das pessoas que eu mais quero que jamais saiam do lar que construí para elas.
Hoje eu só quero querer. Eu quero afundar os pés na areia. Eu quero brincar na rede. Eu quero deitar com a claridade do sol fora do quarto. Eu quero tomar sorvete na praia. Eu quero contar estrelas do céu deitada na canga com alguém. Eu quero correr na grama. Eu quero dançar sem ninguém ver. Eu quero subir em montanhas altas. Eu quero jogar em um clima congelante, sentada no tapete com cobertores e lareira quentinha. Eu quero mergulhar no mar gelado. Eu quero fazer carinho na minha gatinha. Eu quero fazer um bebê gargalhar. Eu quero ler livros emocionantes. Eu quero sair sem rumo. Eu quero alugar filmes engraçados. Eu quero comer pipoca no cinema. Eu quero me sujar de tinta. Eu quero passar um dia inteiro descabelada. Eu quero ver uma noite transformar-se na explosão azul que o sol abre. Eu quero ter filhos. Eu quero fazer loucuras bobas. Eu quero chorar e sorrir com alguém ao meu lado. Eu quero ter amigos de verdade. Eu quero alegrar o coração Dele. Eu quero viajar. Eu quero escrever um livro. Eu quero conhecer pensamentos novos. Eu quero ralar meu joelho fazendo algo que nunca fiz. Eu quero subir em uma árvore para pensar. Eu quero ajudar alguém. Eu quero ouvir. Eu quero tomar coca-cola gelada. Eu quero cozinhar para alguém. Eu quero arrumar um cômodo prestes a receber uma visita gostosa. Eu quero ter paciência. Eu quero ser cada vez mais comovida pelas dores do mundo. Eu quero fotografar o que ninguém mais presta atenção. Eu quero pintar uma tela. Eu quero escolher rosas para mim mesma. Eu quero pintar as unhas de azul. Eu quero fazer planos. Eu quero sair para respirar a beleza do que está fora de mim. Eu quero sonhar acordada. Eu quero usar um vestido novo em uma festa. Eu quero andar descalça na grama. Eu quero usar um casaco quentinho. Eu quero respirar sem sentir essa água que cobre meus pulmões. Eu quero poder olhar as luzes da cidade de uma janela bem alta. Eu quero achar bichinhos nas núvens. Eu quero fazer telefonemas inesperados. Eu quero criar melodias diferentes. Eu quero escrever mais. Eu quero ver diversos sentidos bons na vida.
Eu quero nunca parar de querer a liberdade de ser livre até em prisões humanas.

terça-feira, 2 de março de 2010

A Escolha


Coroa de espinhos. Amor incontido. Cruz pesada. Cuspes. Tapas. Pregos. Torturas. Feridas. Insanidade.
Sangue. Lágrimas. Dor. Deboche. Tristeza. Barbaridades. Entrega. Perdão.
Houve luz, uma explosão no céu terreno. Um Big Bang em células humanas. A criação de uma nova terra iniciou-se por uma única vida. Um exemplo de novo Adão para a humanidade. "Adão" que foi feto, menino e homem. Deus que desceu para ajudar seus filhos. Ninguém precisou ir até Ele para implorar que nos desse uma chance. Ele desceu. Limitou-se aos passos humanos, ao tempo, as dores. Chorou nossas lágrimas, riu nossos risos, limpou nossas almas, curou nossas feridas, surpreendeu nossos dias, acalmou nossos corações, transformou nossas vidas, nos mostrou milagres incríveis, guiou nossos caminhos, mostrou que somos iguais e rendeu-se por amor. Jesus tinha o poder de sair daquela cruz a hora que ele tivesse vontade. Jesus escolheu o sacrifício.
Ele ressuscitou e ao mesmo tempo sempre existiu. Ele sabia do exato momento que você leria essas linhas, antes mesmo do ventre da tua mãe.
Faça o que quiser com essas informações, mas lembre que essa oportunidade chegou até você.
Talvez você nunca tenha falado com Ele.
Talvez você não acredite na divindade Dele.
Talvez você já tenha O zombado como tantos.
Talvez você já tenha O culpado pelos problemas da sua vida e do mundo.
Talvez você nunca tenha passado uma tarde com Ele.
Talvez você não saiba o quanto Ele gostaria de vê-lo chegar perto.
Definitivamente Ele não é apenas um arquivo dos livros de história por ter dividido o mundo em antes e depois. Assim como definitivamente não foi apenas um ser iluminado que passou lições de solidariedade.
Nosso descaso pelo seu Amor tem nos construído corações de aço, olhos cadavericamente insensíveis e bocas gargalhando a insanidade do prazer de sermos cada vez menos humanos. Estamos sempre insatisfeitos com o que conquistamos, sentindo fome e sede de ter o que as vitrines criam dentro das nossas entranhas frias. Deixe-o cuidar de você.
O mundo continuaria intacto sem você, pessoas certamente poderiam substituir a sua existência, mas Ele te escolheu. Ele o desenhou, Ele pensou no seu nome enquanto nos deixou derramar o Seu sangue com a nossa insensatez marcante. Não existe um só de nós que tenha sido perfeito. Não existe. Estamos em uma constante queda, cada vez mais no fundo de nós mesmos. Não penetramos mais nosso espírito, nossa alma basta para atender os chamados da carne. Parecemos porcos fazendo outros porcos de lama. Quantas vezes por dia nós cuspimos na face de Cristo? Quantas vezes por dia nós o colocamos uma coroa de espinhos?
Quantas vezes nós O fustigamos?
Milhares. O mais apaixonante é que não importa o que a gente faça, Ele nunca deixará de nos amar, nunca. O maior exemplo disso é a própria cruz. Nós nunca saberemos o peso daquela cruz, a dor física e espiritual que ele sentiu, ainda sim Ele pedia aos céus para que o Pai nos desse o perdão. Seu sangue é o perdão. Ainda que todos nos abandonem, Ele sempre vai estar esperando o primeiro "Oi, Deus." para celebrar as nossas vozes. Não existe boa ação que faça Deus te amar mais, nem má ação que faça Deus te amar menos. Isso não significa que Deus não se alegra quando você abraça alguém como se estivesse abraçando ao próprio Criador, nem que Ele não chore quando percebe você indo para a trilha da dor. Para passar a eternidade ao Seu lado, basta um Sim. Basta crer que Ele é o único que nos pode levar aos céus. Você definitivamente não precisa fazer esforço algum para ganha-la, é uma questão de fé.
Não existe nada mais lindo do que ser incondicionalmente amado pelo Criador do universo. Nenhuma palavra pode traduzir o prazer que eu sinto em saber que Ele não nos abandonou.
Não tem como agradecer o que Ele fez por nós, teriamos que dizer um "Obrigada" à cada batida dos nossos corações e mesmo assim não seria o suficiente. Porém, confesso que tenho sentido o prazer de alegrar o coração dele com detalhes. Muitas vezes estarei cometendo o que reprovo na humanidade durante toda a minha existência, o que eu mais quero é poder esboçar um pouco de Deus em cada relação que a vida me doar. É uma escolha.
Não importa o que digam sobre mim, nunca vai importar. Agora é hora de abraçar o mundo e agradecer por cada ser humano maravilhoso, que Ele tem colocado no meu caminho. Mas hoje, especificamente hoje, gostaria de agradecer pelos seres humanos que mais me machucaram, porque eles me fizeram aprender a apontar as minhas fraquezas bem no íntimo. E peço perdão a Deus e a cada um se não pude expressar o quão amável é ter Jesus. Espero que cada um possa sentir o meu perdão sobre as coisas que tenham feito, com arrependimento ou não de tais ações. Eu estou cansada dos nossos julgamentos, das nossas eternas hipocrisias e da velha mania de apontar. Chega, não dá mais tempo para isso. Faça uma escolha, ame.
Fale com Ele hoje
"Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele" (Apocalipse 3,19).

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Tem alguém na porta


Deixe a vida entrar com que ela quiser.
Deixe o céu abrir com a cor que ele apresentar.
Deixe o mar molhar os cabelos com a temperatura de um grito seco.
Deixe os sonhos mergulharem no mais obscuro medo do seu peito.
Deixe o seu corpo dançar a música que você tem mais vergonha
Deixe sua voz pedir por uma frase de impacto que só você entenda.
Toc.
Toc. Toc.
Toc.
Toc.
Se alguém chegar com frio, é porque você tem o cobertor mais quentinho da cidade. Se alguém chegar com fome, é porque o seu almoço está querendo outro ventre. Se alguém chegar com uma lágrima, é porque você tem a alegria e ombros amigos. Se alguém chegar com um sorriso, é porque você tem um ótimo modo de comemorar. Se alguém chegar com medo, é porque você tem o abrigo. Se alguém chegar atordoado, é porque você tem o silêncio. Se alguém chegar com falta de esperança, é porque você tem as palavras certas. Se alguém chegar com ódio, é porque você pode dar amor. Se alguém chegar com mentiras, é porque você pode rebater com a verdade. Se alguém chegar com uma piada, é porque você tem uma gargalhada. Se alguém chegar com sede, é porque você tem água gelada. Se alguém chegar com dúvidas, é porque você tem a fé. Se alguém chegar com calor, é porque seu ventilador está funcionando muito bem. Se alguém chegar com o luto, é porque você pode mostrar um pouco de Deus. Se alguém chegar com tédio, é porque você tem os programas diferentes embalados por um delicioso gosto musical. Se alguém chegar querendo um amigo, é porque ele pode ser você. Se alguém chegar cansado, é porque você tem uma cama confortável e ótimos filmes engraçados. Se alguém chegar com desequilíbrio, é porque você tem a segurança. Se alguém chegar, é porque você está ai.
Sempre que baterem na porta lembre-se que é porque existe um pouco das melhores atitudes do universo dentro do seu peito. Queira abrir a porta. Quando você precisar, estaremos todos aqui. Ele sempre capacitará alguém para acolher suas necessidades quando bater, mas não deixe de ouvir quando Ele estiver tentando te capacitar para abrir a porta.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Internalize para externalizar



Voando ao susto do sentimento súbito, percorro meu itinerário afundando-me pelos labirintos da alma conformada. Ainda que a terra me percorra, ninguém do solo poderia me definir por completo. Meu vôo é lânguido e aterrisa entre as núvens mais claras dos meus pensamentos. Fragmentada em palavras desconexas, atiro-me no abismo do meu entendimento nítido. Conforme me exploro, as palavras embalam-me e transformam minha agonia em melodia lúcida. Só assim posso enxergar as páginas, sob um espectro de luz grandiosa. Sinto-me mergulhando nas certezas do mundo. Em queda rápida e serena sinto os planetas desconhecidos acariciarem meus mistérios, com seus tênues espinhos verdes.
Minha essência derrama, transborda, modifica. Enquanto soprava minhas feridas abertas, o vento atirava-me para longe de mim mesma. A nostalgia do futuro umedecia meus olhos escuros, contraindo meu peito ainda mais que os botões vestis. Pouco a pouco o coração afagava minhas lágrimas silenciosas e não deixava espaço para as fúrias passadas. Não havia tempo para o rancor. Não há mais tempo para a raiva humana dominar os nossos pensamentos e atitudes.
O mundo está gritando. Não precisa abrir a porta, ligar a televisão, nem escancarar todas as janelas para escutar. O grito está dentro de você. Já gritamos a tanto tempo juntos que desaprendemos a ouvir. Somos tão dependentes uns dos outros que é ilusão pensar que estamos sozinhos. Esta dependência é tão evidente, que ao negá-la, só estamos demonstrando o quanto somos orgulhosos e incapazes de admitir a nossa pequenez. Ainda que te abandonem, existe algo que nos responde no íntimo. Estamos de alguma maneira misteriosamente conectados, mesmo que tão diferentes um dos outros.
Não deixe o sistema vendar seus olhos. Estamos incorporando novas formas lamentáveis de render nossos corpos a uma espécíe de hedonismo e materialismo irracional. Hipócritas seremos até o último dia das nossas vidas, querendo ou não, é um espinho humano. Uma condição.
Embora sejamos fracos e dependentes um dos outros, e que reconhecer isso, não evidência uma baixa auto-estima, e sim a capacidade de reconhecer aquilo que somos enquanto indivíduos, enquanto seres humanos, compreenda que cada vida é um livro a ser minuciosamente explorado com amor e atenção. Se não quisermos sofrer as conseqüências da dependência negativa, teremos que nos auto-organizar.
É interessante observar como cada um possui um grau próprio de disponibilidade interna para lidar com as demandas externas. Isto é, algumas pessoas são capazes de se manter ligadas ao mundo exterior por mais tempo que outras. A dependência saudável nos torna cada vez mais ágeis, mais livres para fluir. Lanço minha voz ao vento, sem ponto de partida ou chegada. Clandestina, passageira, minha história é o presente. O presente é o meu futuro.
Cada vez que perco-me dentro de mim mesma, olho para o mundo e percebo um pouco de céu, não porque assim vejo, mas sim porque ainda acredito em todos nós.
"No meu coração fiz um lar, o meu coração é o teu lar."


sábado, 6 de fevereiro de 2010

Tic Tac



Estava quase na hora. A cama parecia um ninho. Eu enrolada em um cobertor cor de primavera, sentindo minha alma como um prédio abandonado, num bairro em que ninguém era capaz de me conhecer por completo. O relógio foi correndo, os ponteiros giravam para lá e para cá. Levantei num grito e subi na mureta. Sem pensar em nada, olhei fundo lá para baixo determinada a me jogar como um herói que salta de um edifício e sabe que vai voar. Parecia que balões flutuantes me guardariam na proteção colorida. Eu voaria para a liberdade.

Foi então que o despertador tocou acordes gritantes. Algo me veio a mente desenhando letras deliciosas por uma lembrança passada do cuidado Dele comigo. “O sol me acordou em silêncio, mas parecia iluminar cada célula com tom de mistério. Pode um relógio marcar as horas da sua vida, Paula? É Deus quem marca as horas da sua vida. E olha que sol lindo Ele escolheu para acordar você!" Não importa o que pensem sobre Ele, ninguém nunca irá defini-lo em fase terrena. Mas importa muito o que Ele pensa sobre você. Ele não julga. Nada do que possa fazer irá mudar a condição dele acorda-lo com um sol brilhante, cheio de vontade de iluminar seu sorriso. Você foi escolhido, talvez um dia consiga perceber a responsablidade de ter um objetivo nessa esfera azul, assim que tira-la de dentro do seu umbigo e começar a percebe-la dentro do outro, como um coletivo cordão umbilical. Que tal deixa-lo surpreender você hoje?

Basta pedir e perceber.

Boa sorte, o despertador começou a tocar.


Dentro de mim explode uma festa que não sabe ser muda.
Cores explodem no meu interior, e eu nem preciso estar feliz.
Não estou buscando por intensidade, existe uma calma tão alegre.
Meu coração insulta uma natureza abertamente Paula, No campo das idéias, o existencialismo tornou-se a grande mania do meu refúgio. Como paradigma, acerbo das provações a expurga, a tempera, a nobilita, a regenera. Então vim a perceber vivamente que imensa é a sorte de podermos mudar nossos discos. Na minha simplória opinião, a culpa, se é que existe alguma, deve ser aquela do que não foi feito.
O que importa de verdade é dançar mesmo assim, porque lá fora derramam dias
repletos de chances de nos reinventarmos.
Tenho mania de ser feliz, Essa é a minha loucura e também a minha contradição.
Não gosto de crianças de castigo por sujar a roupa, peixes em aquários, pés cheios de saltos, cachorros em coleiras, pássaros engaioados, água em garrafas, espelhos sem visitas...
Eu gosto mesmo é de observar a vida acontecer. De fotografar meus ponteiros e aproveitar cada segundo desse universo tão carinhosamente feito pelo Criador.
Não importa mais o que gostam de pensar ao meu respeito.
Não importa mais o que precisam fazer para me traduzir.
Não importa mais o que acham entendem sobre a minha natureza.
Não importa mais o carma de tentarem me definir.
O que importa de verdade é que eu sei quem eu sou e Ele também.
Hoje eu me sinto muito mais envolvida com o tato das minhas profundezas, com meus mistérios, impulsos e conflitos. Porque temos em nós o poder de não sermos e apenas estarmos.

"Não fui o que os outros foram
Não vi o que os outros viram
Mas por isso, o que amei,
amei sozinho."


Silêncio


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Pisando nos próprios calos

Ela é apenas um tiro no escuro que gosta de ecoar um nome escolhido para que a identifiquem como Paula.
Esconde-se entre armaduras invisíveis uma tímida de teor reversível. De donzela só a voz.
Pela cidade mora como ruído agúdo que às vezes apresenta-se meio rouco, sente falta mesmo é do silêncio. Seus pés branquinhos cobertos por veias azuis aconchegam-se na grama crescente de quintais desconhecidos, afundam firme pela areia delicada de seus paraísos imaginários, às vezes sai pisando fundo pelo asfalto quente com seu All Star desamarrado. O chão pesa e ela sabe disso.
Pisoteante afoga seus pés em saltos para não sentir o piso de mármore lembrar que sua pele é tão fria quanto o chão. Mesmo assim, se precisar entregar seus sapatos para qualquer pessoa que precise deles, mal importa-se se ficarão sujos, se gelará os dedos ou se sentirá seus pés queimando como o chá borbulhante que toma quando sente medo do céu desabar sobre seus sonhos de garota carioca.
No fundo ela é boa e não para de tentar. De vestidos coloridos ou roupas mulambentas a notável palidez indolor aparenta querer saltar de seus poros.
Cabelos banhados em pleno breu sincero parecem confessar seu mistério. Singular expressão facial parece não conseguir parar de assumir seu grande amor pela humanidade.
Gosta de provocar gargalhadas após sondar o ambiente ao seu redor. Sente-se surda dentro dos seus medos e atenta aos medos alheios. Sem tinta no cabelo, sem rótulos e sem cortes, é apenas uma alma pulsando um corpo vivo. Garota no espelho que só quer sorrir ao notar o quão triste pode ser se deixar a vida atropelar suas bochechas de criança. É fácil penetrar o seu universo diferente dos demais, está sempre procurando uma forma de meditar vibrações boas para cada pessoa que conhece, até mesmo as quais ela não se identifica. Sua alma é faminta por intensidade, violenta e atormentada sabe-se lá o porquê. Tem em sí uma sede de mudar o mundo, mesmo sabendo que tal sede é maior do que sua armadura é capaz. Mergulha em livros, nos problemas de cada coração ao seu redor, assim ela consegue voltar sem nostalgia a sua infância tão cheia de fantasias peculiares. Mistura-se entre gargalhadas, lembranças, dias, discos e lágrimas. Com uma pinta notável no rosto, vermelhidão vibrante nos lábios e olhos mais escuros que sua hipocrisia humana lamentável, dança por suas vestes. Pouco se importa em não ser perfeita. O que verdadeiramente importa é que sempre está em constante metamorfose ardente. Dessas que vão rasgando sua carne para mostrar o quão barulhentamente colorido é o espírito que tem dentro de sí. Isso sim está em crescente evolução nesses anos viventes.
Nossa, olha lá! ela não é mais a mesma, parece mulher. Nossa, que adulta interessante está se tornando. Tão certa das suas vontades... mas não se iluda, ela continua sendo a mesma garotinha querendo transformar tristeza em poesia.
Acho que agora posso deitar no chão, já não tenho mais medo dele.
Depois de encostar minhas costas de bailarina que não dança e esmagar cada lágrima doente, andarei com asas de cartolina que nada podem fazer a não ser me deixar absorta nos meus próprios devaneios que nada querem fugir.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Let me breath

Fui planejada para nascer em 1992, minha mãe engravidou em um hotel em janeiro.
Nasci como um milagre em um dia vinte e três. No mesmo dia, do mesmo mês que a minha mãe nasceu. A bolsa foi rompida no exato horário do seu nascimento. Tive pouca chance de sobreviver. Era prematura, cabia na palma de uma mão adulta. Tive dificuldade de respirar, mesmo assim já existia uma fome de vida maior do que o mundo entre meus orgãos fraquinhos. Eu queria respirar o mundo. Eu queria viver entre todos vocês por algum motivo divino. Rasparam minha cabeça para passagem de medicamentos, colocaram-me em uma espécie de berço hermético que mantém uma temperatura constante, como um útero. Ainda na incubadora, meus pais conversavam comigo, observando meu coração bater mais rápido por reconhecer aquelas vozes que por sete meses me acompanhavam em fluxo diário. Enquanto a incubadora regulava a minha temperatura corporal, no meu bracinho tinha o nome de menina que me havia sido escolhido. Paula, era assim que as pessoas me chamariam. Entre cinco letras aceitava o meu único rótulo, meu nome. Eu não fui um bebê fácil, sempre tive distúrbios alimentares e de sono.
Passava madrugadas inteiras chorando um choro agúdo, quase insuportável. Eu tinha cólicas agressivas em determinados horários da noite. Por algumas vezes minha mãe pensou em não cuidar de mim, quando o desespero a visitava. Era realmente insuportável estar comigo, quase infernal. Foi preciso a ajuda de uma outra mulher, a Celina, um ser humano magnífico que também havia cuidado do meu pai durante toda a sua infância. Celina é o nome doce que não esquecerei por nenhuma fase da minha vida. A amo com todas as forças, minha infância inteira está guardada com ela. Sempre me envolveu com sua ternura e me protegeu para que eu tivesse uma infância feliz. Sempre me deixou fazer coisas de criança, sujar a casa com massinha, pular na cama, bagunçar o quarto inteiro, ralar joelhos, provar doces novos, rabiscar sua pele, entre milhões de besteirinhas. Me abraçava quando eu chorava, não conseguia me ver triste. Me colocava de castigo quando eu precisava, mas sempre teve uma paciência incrível. Sempre respeitou meus sentimentos, nunca achou que era frescurinha de criança. Confesso que o dia que ela for embora desse mundo, metade da minha história vai com ela. Não superarei fácil, será uma jornada realmente dolorosa. Mas não deve-se dizer essas coisas enquanto a vida ainda está pulsando alguém. Outra coisa que se aprende é que ninguém tem o direito de sufocar um ser humano, nem por amor. Cada ser humano tem a liberdade no sobrenome, Cristo mesmo foi quem deu. Ninguém tem direito de anular as escolhas alheias. Ninguém tem o direito de abrir a boca a respeito do que Deus nos deixou tatuado na alma: Asas. Direito de ser e fazer o que sentir vontade. Ele não é o menino mau em cima do formigueiro. Ele nos ama e deixa claro que onde houver amor, existe Seu nome. Essa mania de só pensar nas coisas que deixamos de fazer pelas pessoas apenas quando elas vão embora é extremamente burra. Vivemos em função dos nossos umbigos e vamos esquecendo que não somos nada sem algumas pessoas incríveis que nos fizeram ser o que somos. Tente pensar menos em você, não é arriscado. Lembre-se que as pessoas sentem, que não há nada no universo pior do que esquecer disso. Aprenda a respeitar o espaço de cada ser humano e a falar mais sobre o quão especiais são para você. Prometo que você não vai escapar ileso, vai aprender o que é amar alguém de verdade.
Amor sem respeito não é amor, amor sem saudade não é amor, amor sem carinho não é amor, amor sem perdão não é amor, amor sem cuidado não é amor, amor sem divisão não é amor.
Sentir o que o outro sente, como se estivesse no seu próprio corpo, isso sim é amar.
Respire e sinta que cada batida do seu coração é um milagre e que passar por essa vida sem aprender o que é amor verdadeiro é a mesma coisa que anular o real motivo de você estar vivo.
Ser é suficiente. Talvez ainda exista a mesma Paulinha dentro da incubadora, precisando lutar para sobreviver, com uma enorme vontade de respirar a vida. E quem se importa?
Ainda escuto as mesmas vozes que atentas estiveram torcendo para que eu conseguisse crescer e nas minhas artérias sinto o Criador fazer meu sangue pulsar, sem permitir que eu pare por um só motivo: Amor.