quinta-feira, 15 de julho de 2010

Let the sunshine in.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sem verbo

Gostava de formar laços de seda, de enrolar os dedos nos fios de telefone, de fitar as cordas do seu violino, desenhar livre em uma folha de papel, fazer carinho, dedilhar grãos de areia e principalmente de acompanhar a leitura passando a ponta do indicador pelas letras. Perto do coração que gravava movimentos articulados, vestia uma roupa tão desajeitada quanto seus ombros e saía de óculos de sol para ver o mundo menos escancarado. Gostava de fechar os olhos um pouco antes do sol chegar, de pedalar em ladeiras, tirar fios de cabelo do casaco e de encontrar chocolate na mochila. Paula tinha vergonha de admitir que ama receber flores, de dizer que detesta quando dizem que All Star está desamarrado e que de verdade não importa-se com o que dizem sobre sua maquiagem forte. Paula tinha vergonha dos seus joelhos de garoto, da sua coluna desalinhada e dos seus pés tão pequeninos quanto os de uma criança de dez anos. Paula odeia esportes e de fato não é porque ganha-se ou perde-se, mas porque é desastrada, não consegue correr, gritar ou pular em público. Paula gosta de falar na terceira pessoa, pois sente-se analisando a própria existência. Um botão faltando na blusa era capaz de deixa-la fora de si, mas nada a irritava mais do que tentar tirar pasta de dente de um tubo quase vazio. Ela era feliz, o problema era que isso nunca dependia muito dela. A vida gostava de irrita-la com os detalhes mais engraçados, mas às vezes era pesado demais para suportar sem lágrimas no final da tarde. Paula sempre quis guardar em um potinho os cheiros mais gostosos da vida, óbviamente que cheiro de livraria antiga, aeroporto e de pipoca entrariam fácil nessa lista. Colecionava coisas estranhas, guardava fotos aleatórias, difamava seus defeitos mais ridículos para cada célula do seu quarto. Ela gostava de estudar, o passo difícil era parar o que estava fazendo. Sempre muito curiosa, incrível como gosta de saber de coisas que ninguém repara mais. Achava cheiro de mamão a pior coisa do universo. Quando sentia-se sozinha, criava vidas entre as folhas de papel ouvindo músicas realmente gostosas aos seus ouvidos. Quando comia algum prato feito por alguém que amava, nunca mais esquecia o gosto. Andava de meias só quando o frio realmente arrepiava cada poro do seu corpo pequeno. Olhar nos olhos de um cachorro a fazia sentir paz. Cantar para Cristo a fazia sorrir.
O vapor do café a encantava, o sopro do vento a acalmava e deitar na canga para observar as estrelas era como se tudo voltasse a fazer sentido. Enquanto tomava banho, gostava de imaginar que estava em qualquer outro momento diferente para tentar encontrar soluções. Cada vez que ouvia uma gargalhada ser provocada por suas gracinhas, sentia-se ganhando um oscar.
Ainda que ela não soubesse bem se gostava de ser quem era, nada a fazia mais feliz no mundo do que amar alguém especial. Em contraste, nada a fazia mais infeliz no mundo do que não ser amada por alguém especial. Paula odiava sua mania de parar de ver séries na metade, vomitar, banana, anelídeos, Paulo Coelho e verde musgo. Sentia nojo de si mesma cada vez que provocava uma lágrima, mas quando era ela quem chorava... tratava de fugir do seu ego e ir dormir até outro dia chegar. Difícil mesmo era quando ela conseguia sentir um mês passando como se fosse um ano inteiro...

O que eu estou escrevendo?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Tela


O céu aberto é um convite para ir para qualquer lugar que te faça sorrir. Certas janelas lembram-me que viver é melhor fora das molduras. Bem dentro dos quadros, é assim que eu quero estar. Os cenários não me limitam, a criatividade pode fazer milagres quando precisamos ver o impossível entre as frestas. Pintar com os dedos, deixar a tinta diluir nossas lágrimas, soltar os medos entre os pincéis, dançar entre as manchas, confiar na arte para construir castelos.
Esse meu preto e branco já não é tão rock n' roll, anda precisando de uma tal valsa feita de cores fortes para desatinar a vida em arco íris.
Alguém ai tem lápis de cor?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Contos de farpas

Cantava bem baixinho em notas altas enquanto o céu cobria seus presságios. O fel do coração derramava-se no lençol carmim. Tecia hinos dourados como colméia ao sol que tentava amorenar sua constante palidez. Quando abriam suas páginas, sentia-se como bailarina de caixinha de música. Feliz por estar ali, encantadora ou importuna. Com olhos fartos pelo lustre de cetim, ajustava-se em tropeços, e com o tremor de suas mãos moldava seus delírios em retratos feitos de teclas. O latejar de sua mente era isolado, mas ela sabia voar. O murmúrio desvanecia-se como névoa dissipada pelo vento. Perdia o tino mas não sucumbia ás forças de bambos chãos. Paula era poesia estranha, rima diferente, palavra que não vinha a mente, verso meio desalinhado, involuntária melodia que resolve fazer parte quando menos se espera. Quando a loucura alheia a puxava para a doença, ela dançava. Dançava longe dos seus pés. Não deixava que pudessem rasgar a carne que já estava em seus ossos branquinhos, muito menos que assoprassem suas cinzas enquanto as minúsculas células desfaziam-se. O asfalto gritava palavras de um mundo em crise, enquanto do céu caiam lágrimas. Para sorrir, esvoaçava asas de cartolina e fazia-se pluma. Mas o que confortava mesmo, era a luz que afundava o quarto entre as brechas da janela de madeira.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Era perceptível


André abandonava
Laura estava diante do seu primeiro amor. Não sabia muito bem como lidar, era nova demais para compreender como manteria algo tão forte dentro de si mesma. André era um jovem de beleza avassaladora que cultivava um amor profundo por ela. Era divertido, sensato e objetivo mas às vezes esquecia que Laura precisava sentir-se livre. André tocava guitarra e adorava bandas antigas. André gostava de dedilhar os traços de Laura enquanto ela dormia. André amava cozinhar com ela. André era escritor, mas nas veias era mais real que o próprio respirar. Em um show do Metallica, Laura gritou: "Quer casar comigo?" e recebeu um beijo com gosto de álcool como resposta. Laura de alguma maneira esperava que aquilo fosse um sim. Viveram um romance inesquecível, transpiravam paixão adolescente. Namoraram por longos anos até André mudar-se para o Canadá com sua família, juraram que isso não seria problema. Laura cresceu, André não mais. Eles nunca mais se viram, era tarde. Laura sentiu-se abandonada, ele nunca havia ligado para ela, nem mesmo mandado uma carta. André morreu em um acidente de trem. Laura nunca soube. Até que...
Laura conheceu Eduardo.


Eduardo magoava
Eduardo era um homem interessante, culto, não muito bonito. Eles não eram tão felizes juntos, mas Laura engravidou. Laura não gostava da idéia de ser mãe, mesmo assim os teve. Depois de sete anos de casamento, resolveram viajar sem as crianças.
Laura tinha acabado de vestir seu novo biquíni. Era cor de rosa e tinha lacinhos delicados nas laterais, mal podia esperar para chegar à praia. Sua pele era tão branquinha quanto um algodão mas ela não ligava, não via a hora de mergulhar. Ao chegarem, Laura arrumou as cadeiras, as cangas e o guarda sol. Era a segunda lua de mel do casal, seus filhos Bruno e Giovanna estavam em casa com a irmã de Eduardo.
Tirou o vestido, passou o protetor solar, colocou um lindo óculos de sol e sentou-se na cadeira. Seu marido a observou dos pés aos fios de cabelo e disse: "É melhor tomarmos cuidado para não comermos muito na viagem!!"
Laura logo entendeu que ele não havia notado que seu biquíni era bonito, ele observou o seu corpo e construiu com mais um saco cheio de tijolos um muro de insegurança quanto à auto imagem de Laura. Foi tão forte sentir-se feia que mesmo depois do divórcio em 1989, ela nunca mais saiu do maiô e mesmo assim ainda sente-se complexada dentro de um. Eduardo nunca a procurou novamente. O estranho era que Laura era uma mulher linda, não havia nada de errado com ela. Até que...
Laura conheceu Otávio.

Otávio esquecia
Otávio sempre foi um homem repleto de amigos. Possuia grande irritação nos olhos e sobrancelhas medonhas, pareciam taturanas. Otávio gostava de deixar a barba falhada e usar blusas largas. Nunca levou Laura para jantar sem as crianças. Odiava o macarrão que Laura fazia com dedicação e sorrisos múltiplos enquanto ouvia Chico Buarque.
Otávio odiava o barulho que os saltos de Laura faziam no piso de madeira. Odiava seu perfume forte e o modo que ela dormia esparramada na cama. Otávio era executivo e Laura dava aulas de piano. Otávio tinha os nervos quentes e Laura era a paciência em pessoa. A escova de dentes de Otávio era azul e a de Laura, lilás. Laura odiava os pelos de Otávio e o modo que ele fazia barulho mastigando. Otávio amava as pernas de Laura e seus seios fartos. Laura gostava de comprar roupas enquanto Otávio passava horas bebendo com seus amigos. Otávio nunca observou como Laura era angelical ao dormir. Otávio não gostava de sair com Laura. Ela sempre foi uma mulher delicada e entregue aos seus dons. Laura possuia fundos olhos azuis e silhueta afinada. Quando tocava o piano da sala, seus filhos sentavam para ouvir aquela corrente sonora como se a mãe fosse um anjo a ter caído do paraíso. Otávio via fórmula 1 e não comia salada. O tempo foi passando e Laura, Otávio, Bruno e Giovanna ainda estavam juntos.
Uma sexta-feira de novembro havia chegado. Laura acordou radiante, queria estar linda. Soltou seus fios claros, colocou seu perfume favorito e passou um batom de cor forte. Verificou se tinha algum telegrama, olhou a caixa de emails, passou meia hora olhando para o telefone. Ouviu alguém na porta e pensou que fosse o florista. Não era. Foi ao mercado com as crianças, comprou tudo o que precisava para fazer um jantar maravilhoso. Ao chegar em casa, arrumou todos os quartos, passou os ternos do marido e foi preparar o jantar enquanto as crianças brincavam. Já havia passado da hora de Otávio chegar. Laura ficou preocupada, ele não antendia ao celular. Laura pensou que ele deveria estar preparando uma surpresa para ela. O relógio bateu três da manhã. Laura observou o jantar tão frio quanto o seu marido, foi dormir com seus filhos e deixou que as lágrimas pudessem lavar suas bochechas da falta de sorrisos.
Otávio chegou no dia seguinte e havia esquecido de que tinha sido aniversário de Laura. Laura nunca o contou. Agora tinha três filhos: Breno, Giovanna e Otávio. Laura morreu aos quarenta e três em uma parada cardíaca ao lado de Otávio e desde aquele dia que ele havia esquecido de seu aniversário, nunca mais tinha sido sua mulher. Ela tinha feito o papel de mãe. Se não era uma mãe atenciosa aos seus filhos, imagine ao filho de cinquenta e oito anos. Eduardo ganhou a guarda dos filhos e dois meses depois, Otávio casou com a secretária de vinte e seis. Até que...
era tarde, Laura não conheceria mais ninguém.

Laura desperdiçou

O importante não foi quem supostamente esqueceu, magoou ou abandonou. No final era perceptível que Laura havia jogado fora a oportunidade de ter sido plenamente amada ao não ir embora das suas relações frustradas. Para ela, fugir do sofrimento era ausentar-se da própria vida. No último segundo de vida Laura entendeu tudo. Ela sentia falta de alguma coisa que não estava lá, mas não sabia o que era. Achava que era falta de casa cheia, de muitas pessoas. Quem sabe até fosse falta de si mesma. De pronto soube, já era.
Até que...

Laura reencontrou André.




sábado, 5 de junho de 2010

Entre gestos


No corpo carrega uma alma inifinita que conta um, dois, três para fechar os olhos e começar a sonhar. Tão pequena essa tal gigante que pensa que a vida é fácil de viver dentro dos olhos. Não sabe onde está, nem para o que veio mas sabe que seus pés sempre trilham o que o passado exala. Tão louca essa tal vibrante mania de ir embora dos pesadelos, menina que sonha com o que vê dentro do espelho. Ela sabe como pode ser uma tempestade lá fora porque dentro tem o sol. Sol agúdo que esquenta a tormenta dos seus motivos castanhos de não saber o que é. Tantas vezes acalentada em outonos infernais procurava abrigo no próprio peito. É perdida, mas pessoas parecem conseguir se encontrar com as suas palavras. Entre cada fronteira criava força entre ossos frágeis e destruia muros de aço com palavras de algodão. Para respirar trazia as palavras ao convívio, como um livro aguardava olhos que soubessem ler com atenção e ousadia de compreensão. Leve pintura de porcelana que estala, estala estala e se espatifa no chão quando não é iluminada por um faról de poesia. Quantos saveiros, quantos navios e quantos naufrágios dentro de do seu oceano orgânico a apontantavam como navegante das próprias ilusórias correntes marítimas. Quando precisava de um sopro de esperança, imaginava que alguém iria com ela pela vida, pelos passos, pelos poros, pelos sonhos e pelos ralos. Tão densa a armadilha de sempre ter que sentir seus fios soltos no ar, como se uma melodia não pudesse mudar o futuro de lugar. Quando a menina pisava fundo dentro do mar, era como se uma flor de gelo brotasse nos espacinhos entre os dedos de seus pés. Pés bailarinos e desengonçados eram regados por correntes veias azuis. Seus dentes dilaceravam emoções, mordia a vida com vontade. Seu corpo era estrelado de células dilatantes e branquinhas, que mergulhavam em serena nostalgia refugiada entre as raizes dos pêlinhos dos braços pequenos. Nostalgia que afagava a lembrança de ter sido livre. Livre entre giz de cera, casinha de madeira e pêlo de ursinho. Não deixe que o tempo a leve embora do que os nervos prendem e chamam de lembrança. Se o coração bater forte e lembrar, abra a gaiola e pinte um céu. Ela sabe voar para perto, para longe, para o vento. Mas se coração bater forte e pedir, abra a porta da sala, tire o casaco pesado dos seus ombros pequenos e a convide para sentar. Ela sabe permanecer e ao mesmo tempo levitar entre emoções em perfeita sintonia compartilhada. Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço juramento: Amo firme, fiel e verdadeiramente a liberdade de permanecer em tudo aquilo que importa entre os calendários que caem atrás do armário e nos fazem esquecer que o tempo não espera.








quinta-feira, 13 de maio de 2010

Retinas e pulsações



Quando a luz não vem de dentro, é melhor abrir as janelas.


Era hora de reinaugurar a própria vida, começar um caderno novo. Desdobrar-se em um oceano perdido. Sair da gaiola da própria mente e enfrentar as limitações do mundo. Pelas retinas rendia-se aos pés da impressão imediata. Pelo coração derramava-se aos braços do conhecimento ao outro. Seu coração estalava em articulada sintonia pulsante. Encostava os dedos no peito, mas não os conseguia afundar. Ela queria tocar seu coração de menina, embaralhar-se em veias e mapear seus labirintos em uma retina que pudessem refletir o que se sente dentro de um beco chamado espelho. Aos cacos sorria em servir. Precisava ser luz em luma. Silêncio de hospital. Ruído de banho abafado pela porta. Um par de pantufas no inverno. Margarida no cantinho do asfalto. Chocolate quente em caneca antiga. Brinquedo encontrado. Esconderijo de criança. Um barquinho de papel. Broncas para o bem. Personagem de desenho. A música escolhida para cozinhar sozinho. Espacinhos entre os dedos que fazem lembrar de algum contato com outra mão. Caneta imediata para anotar telefones. Chaveiro de viagem. Ursinho de dormir. Útero que forma. Coração que adota. Ar condicionado no calor. Lanterna embaixo da cama. Lápis de cor no estojo. Ouvinte atenta. Alianças de casais. Travesseiro com cheirinho de shampoo. Um poema sem rimas na gaveta. O balancinho no quintal da casa antiga. Mãos que fatiam lágrimas. Um sorvete favorito do verão. Casa pintada. Um biscoitinho de madrugada. O pulo na piscina. Sofá confortável. Arco íris. Dedos na grama. Resolução da prova de física. Malas prontas. A rede confortável. A coca-cola congelando. A praia de tardinha. Uma viagem em família. Uma massinha de modelar. Uma bailarina no centro da sala. O Rock n' roll no quarto. Um gatinho ronronando. Um segredo engraçado. Uma loucura boba. Seriado querido. Orquídeas na mesa. Pegadas na areia. Neve no telhado. Nomes escritos no ar. Tela recém pintada. MPB no churrasco. Grinalda da noiva maquiada. Constelação favorita. Pulo na cama. Suco de uva às quatro da tarde. Cuidado de esposa. Pai que chega cedo. Casinha de bonecas na grama. Um passarinho na janela. Bola que vêm por cima do muro. Ânimo de adolescente. A tatuagem eterna. Frasco novo de perfume antigo. Colo de mãe. Cheiro de livro novo. Sorriso tímido. Fita cor-de-rosa no cabelo. Cinema com pipoca e guaraná. Beijo de bebê. Pipa na mão do menino. As bochechas dos avós. Os vídeos da infância. Presente na porta do quarto. Oração secreta. Borboleta que pousa inesperadamente. Abraço que aquece o outro coração. Álbum de fotografias no armário. Um casaco na bolsa. Um beijo apaixonado. Janela de avião mostrando as nuvens. A conchinha diferente na praia lotada. Um pijama listrado. O filme devolvido. Uma frase que se espera. Um brigadeiro na panela. Arte na parede da garagem. Uma carta entre as contas. Uma gargalhada solta pelo quarto. Um conto inventado para dormir no escuro. Um abrigo na tempestade. Alguém. Alguém para te fazer sorrir.

Com os olhos cheios de cores possuía uma relação ainda sensível com seus diamantes não lapidados. Seus sinos ainda eram roucos. Estranhamente roucos. Mesmo assim, seu organismo implorava para que ela transformasse uma vida que fosse. Mas para isso, ela precisava transformar-se. Ela mergulhava ao encontro de si mesma e percebia que suas células entregavam fotografias para que guardasse com carinho. Ao gosto inato da dissolução noturna percebia que em instantes aprendia sobre suas próprias dores nas tristezas do mundo.

Paula via-se nas feridas das pessoas. Na solidão de quem afasta um amor e chora em um travesseiro frio. Na fome dos meninos da esquina. Nos preconceitos. Nos dedos apontados. Nos gritos. Nos hospícios. Na pipa presa no fio. Na fuga do bichinho de estimação. Nos lutos inevitáveis. Na monopolização. Na falta de amigos. Nas lágrimas que são derramadas em secreto. No livro sem leitor. Nas separações. Nos abortos. Nos assaltos. Nas irritações do cotidiano. Nas dores de cabeça. Na nostalgia que corrói. No escritor esquecido. Nas músicas de namoro antigo. Nas culpas sem remédio. Nos casamentos infelizes. Nas religiões. Na distância. Na falta de cobertor. Nos mendigos em papelões. Nas crianças que precisam trabalhar. No governo formado por ladrões. Nos professores que traumatizam. Na rejeição. Na miséria das mentes materiais. Nas purezas dos marginalizados que não são observadas. No teatro vazio. Nas portas trancadas. Nas histórias que não conseguem ter fim. Nas dores de coluna da mulher do prédio. Nos discos arranhados. Nos desempregados em desespero. Nos asilos. Nas mulheres que não podem ter filhos. Nos filhos que crescem sem seus pais. Na morte precoce. No atropelamento da vizinha. Na fratura do estudante. Nos velórios sem palavras de consolo. Nas brigas que afastam. Na falta de um perdão. No telefonema que nunca aconteceu. Nos pratos vazios. Nos envelopes sem cartas. Nas palavras ásperas e as nunca ditas. Nos abraços insossos. Nas lágrimas da criança. A beleza por dentro de um coração revestido em lataria. Nas minhas contradições, erros e atitudes patéticas. Na vida sem Cristo. Nas friezas dos médicos. Nos talentos que são enterrados no cemitério. Nas garrafas vazias. Na loucura porca nos bolsos políticos. Nas drogas pelo corpo. Nos hospitais e escolas públicas. Na tristeza nos olhos de quem vira as costas e a gente não consegue ver. Em todo e qualquer peito que não pulsa o amor. Nós devemos ser a mudança que queremos presenciar em cada ser humano. É hora de abrir um novo caderno. Nunca é tarde para escolher uma nova capa motivadora e focar todo o fôlego em páginas em branco. Se for da sua vontade, comece você também. O novo incomoda porque nos desafia. O novo não precisa gritar, pois em silêncio já nos convida a trocarmos as lentes. O novo é ver no rosto do outro um espelho e em entusiasmo conservar viva a fome de alimentar outras vidas.



Não é engraçado quando olhamos outros olhos bem de perto e conseguimos ver nossos rostos? É, assim como se pudéssemos fazer alguma coisa...



domingo, 9 de maio de 2010

Minha MÃE


Em dias vinte e três de agosto ela fez alguém ser mãe e tornou-se mãe.

Quando nós somos pequenos nós imaginamos que elas sempre foram mães, porque de fato nós já nascemos vendo tal condição. Porém, muito antes de serem mães, foram garotas tão pequeninas quanto nós. Minha mãe não pode ser descrita apenas como uma mãe. Porque de fato antes de ser mãe ela foi filha. A responsabilidade de ser mãe é um fardo que ela nunca viu como um, mesmo cansando algumas vezes como qualquer uma cansa.
Ela sempre foi uma das pessoas mais puras que eu já conheci na vida. Às vezes é um vulcão que se explode em lavas sem culpa, como muitas vezes faço. Mas na grande maioria das vezes seus olhos mostram uma criança que nos faz ter vontade de abraçar até que ela sinta o quão amada é sem que eu diga e muitas vezes deixe de expressar. Ela é uma mulher encantadora.
Ela é forte, sempre foi forte. Nunca esqueci nenhuma vez que ela sentou para chorar comigo, muito menos as bobeiras que riamos em silêncio uma da outra. Eu sinto muito orgulho de ser filha de uma filha. Filhas que nasceram juntas em um mesmo domingo de agosto e que aprenderam, aprendem e aprenderão por toda a vida lições valiosas.
A relação 'mãe e filha' está longe de ser cor de rosa. A relação é vermelha. Vermelho humano.
É vermelha por ser intensa, louca, sublime, sólida e complicada ao mesmo tempo que é apaixonantemente inesquecível e irremediavelmente insubstituível. Filhos não são projeções, muito menos mães. Somos realidades inegáveis e nem sempre simples. Porém, somos amor. Amor este que não pode ser comparado a nenhum outro. Porque de fato fomos conectados por um cordão umbilical, por olhares que ninguém mais viu, por lágrimas, por consolos imediatos, por gargalhadas sinceras, por madrugadas sem dormir, por sangue, por grito, por força, por respiração, por dependência amiga e cristã. Mães amam filhos como amam a si mesmas, muitas vezes superam ainda mais o que sentem e filhos amam mães como heroínas.
Mãe, nosso encontro foi escrito por Cristo para que nós duas tivéssemos a chance de aprendermos, ensinarmos e principalmente nos amarmos de todo coração. Mãe, eu não estou te escrevendo só porque é dia das mães, de verdade. Eu estou te escrevendo porque sinto sua falta de um jeito inexplicável, ainda que esteja dormindo no quarto ao lado. Eu te amo, mãe. Eu te amo de verdade e eu não sei existir sem saber que você também me ama eternamente.
Eu me orgulho muito de você. Estamos juntas nesse caminho. Obrigada por tudo.
Parabéns por ser MÃE.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Continue




"O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela." (Fernando Pessoa)

Sempre que um livro termina sinto como uma despedida quase que injusta a uma história que talvez nunca mais continue. Poderia me dedicar escrevendo continuações, mas de fato continuaria sabendo que não foi assim que os personagens seguiram. Todos os personagens morrem. Não importa o final, eles sempre morrem. Em muitas das histórias você nunca mais pode saber sobre os acontecimentos daquelas vidas.
Sabe quando você acaba de ver um filme com final cretinamente subjetivo e sente vontade de nunca mais ver outro?
De fato nunca foi o pior final para mim. Os piores finais são aqueles que mostram um belo retrato e terminam com letrinhas brancas na tela tão escura quanto a minha tristeza de não poder continuar participando em secreto de todas aquelas mentes. Os nomes dos personagens apagam em rolagem sendo relacionados aos nomes dos atores. É por isso que eu me apaixono por diretores e escritores, porque são de fato o útero quentinho e libertino de cada personagem que acaba fazendo parte de nós mesmos.
Isso me fez tentar em pensar no quanto Cristo deve sentir-se triste ao ser limitado por nós a participar das nossas escolhas, detalhes, gargalhadas, lágrimas e momentos particularmente importantes. De olhos sublimes vendo nossas histórias do começo ao fim, coloca-se a esperar que sintamos sua falta. Somos tão pequenos que conseguimos limitar o criador das nossas próprias almas com burras tentativas de imaginar que sabemos alguma coisa sobre o amanhã que ele já viu muito antes de sonharmos em existir. É uma pena que muitas vezes o abandonemos e só comecemos a perceber que Ele sempre esteve a nos observar em sofrimento quando tudo desaba entre as entranhas dos nossos pensamentos egoístas e resolvemos voltar para o seu cuidado paternal. O mais bonito é que quando ele nos recebe novamente dos nossos abandonos ele não nos aponta o dedo humano. Ele nos derrama o seu coração em um sorriso e nos acaricia com suas mãos poderosamente perfuradas por nossos pecados. Talvez ele esteja implorando até hoje para que você o dê um "Oi, Cristo!".
Sempre pensei dentro da minha ingratidão humanamente decadente que nascer era um dos milagres mais covardes que pode-se existir. Acorda-se de um alarde obrigatório enquanto os pulmões gritam por ar e quando menos se espera você subitamente É. O que eu não sabia era que não era só uma condenação para sofrer, trabalhar desesperadamente para pagar contas e nunca livrar-se carnalmente de uma alma atormentadamente pensante em um corpo pulsantemente frágil e cruel, sem a morte. Sorte a nossa que estamos de passagem por essa gaiola infeliz. Porém isso não anula a responsabilidade de ajudarmos nas melhoras do mundo. Não existe possibilidade em imaginar-se não existindo, porque de fato fomos criados para sermos eternos. É exatamente por isso que a morte nos passa uma dor bruta, porque de fato não fomos criados para passarmos por ela.
Quando alguém nos dá um presente, nós não nos perguntamos o que precisamos fazer para aceita-lo. Basta receber. O valor desse presente está no sangue de um Soberano entregue por amor, oferecendo-o gratuitamente que escolha a eternidade.
Continue sua história.

sábado, 17 de abril de 2010

Just like a shot.

Não existe ruído mais atormentador que o som do silêncio.