
Vem, a luz tá acesa.





Seu ninho era quente, e mesmo que emaranhado de espinhos, era confortável e carecente. Mas quando seus ossos começaram a esticar, as dores apareceram por toda parte e minúsculo ficou o espaço para que seus ossos pudessem tomar forma. Somente um sutil bater de asas poderia acariciar seus penares, mas não queria aprender a voar. Suas asas estavam cortadas por amor e na garganta sentia a dor das palavras presas. A pequena menina já não era tão pequenina, mas seus olhos continuavam os mesmos, mas naquele momento estavam fixos e perdidos. Sem horizontes e sem ternura. Estava imóvel e frágil como um jarro de cristal. Ela não conseguia mais permanecer à margem de si mesma e de colos rompidos pelo silêncio. Pegou impulso, esticou as asas de porcelana e foi num fluxo de vento atormentante que lançou-se ao mais profundo abismo aterrador. Espatifou seu coração em milhares de pedaços estrídulos. Ali estava seu velório. Desfalecida em seu próprio berço gemia a dor da morte. Assassinou a criança que existia em cada célula e descobriu que crescer era um torturante palco de luz, a distância era um grito vermelho. Seu peito estava dilacerado e nada, nenhuma dor, nenhum ser humano havia causado amputação parecida a qual pudesse ser similar ao corte profundo que ela mesma feriu-se."Todos nós nascemos originais e morremos cópias." (Jung)
O que constitui o ser e a natureza das coisas é o que existe por trás das cortinas. Apenas aquele que não possuir entre as veias um sangue vermelhamente desprovido de hipocrisia, não sente que o pensamento nada mais é do que o ensaio da ação consciente. Nada se finda nem inicia-se sem o processo subsequente. Muitas das atitudes que julgamos levianas e inconsequentes começaram lá onde o inconsciente fotografa como uma chapa desprovida de esquecimento. Atirar-se na voragem da descoberta de si próprio exige o despejo de toda maquiagem sanitária. Vomitar as epístolas e frases de bolso faz com que nossos ouvidos dilatem o verdadeiro sentido de se transitar a arte de cada um. Inquirir a inocência perdida entre os anos só nos causa verdadeira sensitiva indagação. Só aquele que conhece e assume o passado, sabe que a força está agora, prontificada recentemente para fazer e ser o que se quiser. Não tenha receio nem desonra de ser quem habita o peito falho, apenas assuma a farda do bem e utilize-se para uma nova era de amor indiscriminado. Seja quem você gostaria de passar o resto da vida ao lado. Agora sim, faça sua arte: Mude roteiros sem precisar ser teatral. Ria e faça rir.

Gostava de formar laços de seda, de enrolar os dedos nos fios de telefone, de fitar as cordas do seu violino, desenhar livre em uma folha de papel, fazer carinho, dedilhar grãos de areia e principalmente de acompanhar a leitura passando a ponta do indicador pelas letras. Perto do coração que gravava movimentos articulados, vestia uma roupa tão desajeitada quanto seus ombros e saía de óculos de sol para ver o mundo menos escancarado. Gostava de fechar os olhos um pouco antes do sol chegar, de pedalar em ladeiras, tirar fios de cabelo do casaco e de encontrar chocolate na mochila. Paula tinha vergonha de admitir que ama receber flores, de dizer que detesta quando dizem que All Star está desamarrado e que de verdade não importa-se com o que dizem sobre sua maquiagem forte. Paula tinha vergonha dos seus joelhos de garoto, da sua coluna desalinhada e dos seus pés tão pequeninos quanto os de uma criança de dez anos. Paula odeia esportes e de fato não é porque ganha-se ou perde-se, mas porque é desastrada, não consegue correr, gritar ou pular em público. Paula gosta de falar na terceira pessoa, pois sente-se analisando a própria existência. Um botão faltando na blusa era capaz de deixa-la fora de si, mas nada a irritava mais do que tentar tirar pasta de dente de um tubo quase vazio. Ela era feliz, o problema era que isso nunca dependia muito dela. A vida gostava de irrita-la com os detalhes mais engraçados, mas às vezes era pesado demais para suportar sem lágrimas no final da tarde. Paula sempre quis guardar em um potinho os cheiros mais gostosos da vida, óbviamente que cheiro de livraria antiga, aeroporto e de pipoca entrariam fácil nessa lista. Colecionava coisas estranhas, guardava fotos aleatórias, difamava seus defeitos mais ridículos para cada célula do seu quarto. Ela gostava de estudar, o passo difícil era parar o que estava fazendo. Sempre muito curiosa, incrível como gosta de saber de coisas que ninguém repara mais. Achava cheiro de mamão a pior coisa do universo. Quando sentia-se sozinha, criava vidas entre as folhas de papel ouvindo músicas realmente gostosas aos seus ouvidos. Quando comia algum prato feito por alguém que amava, nunca mais esquecia o gosto. Andava de meias só quando o frio realmente arrepiava cada poro do seu corpo pequeno. Olhar nos olhos de um cachorro a fazia sentir paz. Cantar para Cristo a fazia sorrir.


Quando a luz não vem de dentro, é melhor abrir as janelas.
Era hora de reinaugurar a própria vida, começar um caderno novo. Desdobrar-se em um oceano perdido. Sair da gaiola da própria mente e enfrentar as limitações do mundo. Pelas retinas rendia-se aos pés da impressão imediata. Pelo coração derramava-se aos braços do conhecimento ao outro. Seu coração estalava em articulada sintonia pulsante. Encostava os dedos no peito, mas não os conseguia afundar. Ela queria tocar seu coração de menina, embaralhar-se em veias e mapear seus labirintos em uma retina que pudessem refletir o que se sente dentro de um beco chamado espelho. Aos cacos sorria
Com os olhos cheios de cores possuía uma relação ainda sensível com seus diamantes não lapidados. Seus sinos ainda eram roucos. Estranhamente roucos. Mesmo assim, seu organismo implorava para que ela transformasse uma vida que fosse. Mas para isso, ela precisava transformar-se. Ela mergulhava ao encontro de si mesma e percebia que suas células entregavam fotografias para que guardasse com carinho. Ao gosto inato da dissolução noturna percebia que em instantes aprendia sobre suas próprias dores nas tristezas do mundo.
Paula via-se nas feridas das pessoas. Na solidão de quem afasta um amor e chora em um travesseiro frio. Na fome dos meninos da esquina. Nos preconceitos. Nos dedos apontados. Nos gritos. Nos hospícios. Na pipa presa no fio. Na fuga do bichinho de estimação. Nos lutos inevitáveis. Na monopolização. Na falta de amigos. Nas lágrimas que são derramadas em secreto. No livro sem leitor. Nas separações. Nos abortos. Nos assaltos. Nas irritações do cotidiano. Nas dores de cabeça. Na nostalgia que corrói. No escritor esquecido. Nas músicas de namoro antigo. Nas culpas sem remédio. Nos casamentos infelizes. Nas religiões. Na distância. Na falta de cobertor. Nos mendigos em papelões. Nas crianças que precisam trabalhar. No governo formado por ladrões. Nos professores que traumatizam. Na rejeição. Na miséria das mentes materiais. Nas purezas dos marginalizados que não são observadas. No teatro vazio. Nas portas trancadas. Nas histórias que não conseguem ter fim. Nas dores de coluna da mulher do prédio. Nos discos arranhados. Nos desempregados
Não é engraçado quando olhamos outros olhos bem de perto e conseguimos ver nossos rostos? É, assim como se pudéssemos fazer alguma coisa...
