terça-feira, 10 de abril de 2012

No fundo afundo. Do raso, renasço.


Se existe um instante onde todo por onde começa a vir, esse instante se apresenta como um fatídico ensaio sobre sentar entre as próprias farpas. Ser humano é ter a capacidade de renascer e encontrar luz e trevas dentro de si. Glorioso é quando o peito afunda e afiado na escuridão finalmente encontra a luz que o permeia. A casa ainda está cheia de larvas dos maus presságios. O espelho espatifou no chão em mais de mil pedaços abertos e os cacos permanecem refletindo faces monstruosas, incompletas, disformes e que mesmo que irreconhecíveis são assustadoramente suas. A gente senta, grita, escorre e se pergunta: Como podemos nos assustar com o nosso próprio Eu? e a resposta vem: Ninguém disse que casulos não eram escuros e ninguém prometeu que depois dele, as borboletas viveriam mais de vinte e quatro horas. Não adianta esconder, não adianta fugir. É atormentador colher os próprios penares. É assustador tatear o próprio obscuro e ninguém sai ileso disso no mundo. Parece que a vida nos assiste de mansinho, bem baixinho e milimetricamente atenta para lançar bem na fratura exposta aquilo que mais temíamos pelo potencial de entredilacerar-se. Parece cruel, parece castigo. Mas é dádiva. Não há nada mais poderoso do que a dor. Não há nada que transforme mais a vida e o caráter do que essa mania do destino de mexer lá onde dói mais. Não é sadismo, é poesia. É capacitação. É oportunidade única de renascer. O que dói é que transformar-se pode estar intimamente ligado a funerais irreversíveis, que sim, serviram para que fazer renascer fosse ainda mais belo. Mas que sabe, estão lá dentro. Gritando íntimo: Se você não tivesse tanta escuridão naquele momento dentro de você, teria a luz mais linda da sua história. Ah sim, que luz. Luz infinita que iluminaria tudo por dentro. Acredito que Deus nos dá longos abraços quando percebe que usamos nosso potencial de ser luz e sim, vou iluminar por ai. Amor transforma. A sensação é de morte sem essa luz e a vontade de acordar de um pesadelo permanece, mas renasci. E a gente não pode passar a vida inteira sem perceber que é a dor que nos faz construir felicidade autêntica. Vou amar de todo o meu coração e rezar noites a fio pra que a luz que tece meus dias não partir e meu peito escurecer. Porque agora, sou luz. E luz, é você. Quando alguém é maior que o mundo, a gente se sente meio sem chão, sem casa. Mas saiba, você é meu lar. E ali, bem perto da curva do seu ombro direito e da imensa paz infinita do pulsar do seu peito é onde mora meu casulo, meu castelo, meu porto vivido em par.
Vem, a luz tá acesa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Apague a luz



Tatear as próprias trevas entre as cavas nos proporciona a
expansão da consciência. Tomar-se num só gole sem vestígios de mistério sempre foi para a humanidade uma espécie de tabu. Se voltarmos a natureza primitiva dos míticos "Adão e Eva", aos vestígios do inconsciente e até mesmo aos estudos do desenvolvimento da consciência humana, podemos analisar que a descoberta do "eu" é o início de uma metamorfose dolorosa e magnífica. Podemos observar esta característica humana nas mais diversas etapas e situações existenciais. A infância é o grande palco, afinal nesta etapa não sabe-se o que o "eu" representa e a sensação mais comum é a de ameaça, principalmente em contextos onde seus pais ou símbolos de proteção não evidenciem alguma presença. Lembra do seu primeiro dia na escola? ou naquela apresentação onde só quem passava segurança eram os rostos mais familiares?
Todos nós já passamos por situações deste porte, inconscientemente e conscientemente. E isso não muda muito durante a fase adulta. Quando nos conectamos dentro de um relacionamento, dependendo do grau da fusão entre um indivíduo e o outro, ao haver um rompimento, a sensação pode ser de que o "eu" foi embora junto. O vazio ecoa pela existência e ai inicia-se o processo de conscientização do tênue "eu". Lidar com "o outro" é um desafio desde o início da nossa psique.
Quem nunca teve a sensação, ainda que durante a infância de que a luz é o símbolo protetor?
É ai que mora o risco. A luz não nos ilumina o que há de sombrio. É preciso despir-se do medo do silêncio e do oculto. Quantas vezes estamos sozinhos em casa e ligamos a televisão desmotivadamente, só pra sentir uma presença mesmo que invisível? Quantas pessoas morrem sem experimentar o poder da meditação? Será a consciência uma dádiva ou um sofrimento?
A consciência é o único caminho para o real. A consciência é o único rumo que nos movimenta para fora. A consciência nos faz ser o "eu" em sua mais excêntrica esfera. Uma das consciências mais importantes da vida é a de que não devemos nos apegar aos papéis que vivemos, nem as coisas que possuímos. Devemos nos apegar às coisas permanentes, essenciais, imateriais. Devemos descobrir o que nos transcende e transborda. Compreender-se é reinventar-se. Reinventar-se é a única maneira que mantém a vivacidade e a consciência no presente pleno. O ego precisa de flexibilidade para apropriar-se ao momento de modo real.
Feche os olhos e permita-se sentir medo. Permita-se sussurrar seus cantos fantasmagóricos. Grite sua mais pura essência selvagem. Descubra o seu "eu" no escuro da consciência mórbida porque ao acender a luz, a metamorfose dará o tom que guiará a sua existência superiormente interessante: A existência daquele que livrou-se das falsas roupagens da covardia e atirou-se na miragem do falso abismo da consciência sem medo de nunca mais voltar para a casca comoda.
Quem enxerga no escuro, não teme ao claro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011



Hoje, do que eu sinto falta...é do meu sorriso.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Autarquia



Dois terços de mim são saudades do que não vivi. O outro terço eu rezo pra ver se descubro o que é.

Não pense que é assim completamente rotineiro pra mim: Eu nunca gostei tanto de cicatrizes antes. Cicatrizes são como características que não se repetem em mais ninguém, nem nos universos mais loucos dos livros. Cabe a nós, na quietude do silêncio, destilar segundos vividos como quem permite-se aprender a ver beleza nas marcas. Não existe quem não saia marcado daqui, e é por isso que encostar os cotovelos em marquises gélidas, assistir as nuvens em sua dança celestial é pra mim, como dedilhar o reflexo e reconhecer a finitude anunciada. Nosso tempo está lançado e estar preso na estranha confiança que a gente tem em si mesmo nunca foi lá uma idéia que me agradasse, por isso tiro sonecas sem sentido, como num jeitinho freudiano de dizer pra mim mesma que só preciso acordar outra vez.

Rezo para que as horas, cicatrizes imutáveis dos relógios, levem-me ao tempo de mudar-me e manter-me. Levem-me, lavem-me e tragam dias passageiros com tanta beleza que se os pudesse tocar, sentiria-os desfazer entre os dedos. Tragam-me brisas capazes de fazer-me abraçar as pernas de tanta introversão. Tragam-me ao peito, aquele sentimento solto da liberdade de pertencer-me. E por fim, marquem este encontro de mim, comigo mesma para todas as manhãs daqui em diante.

Hoje eu chovi e molhei a primavera de cada poro deste corpo fechado.
Eis que solto-me aos dias e os respeito agora, assim como vierem. Mas que não se iludam, as manhãs. Não desisto fácil de lutar pelos sorrisos vividos em par. Nunca. E não sinto medo de dizer nunca. Porque nunca e sempre fazem parte das sensações absurdas que o peito desatina, e viver é respeitar o sentir. E sentir é ter a convicção de que mais ninguém no universo pode trilhar o seu caminho e viver sua história. E viver a sua história é notar que só você traz na alma o potencial de fazer-se autenticamente feliz. E fazer-se autenticamente feliz é ser você, ainda que chova. Mesmo que o imprevisível seja inegável, atreva-se a seguir seu próprio caminho, ainda que ele seja de dor. É seu e ninguém mais pode roubá-lo.

Agradeço a vocês, cicatrizes.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Três de Setembro



Menino lá de longe, posso ouvir-te nascer. No peito guarda o mundo todo num só tom. No sorriso é um pouco de todos nós e todos nós, um pouco de você.
Viajante da noite, amador das luzes da cidade. Sonhador dos sonhos antigos.
Frágil como louça e ossos tecidos em aço. Intenso, sublime, amargo e doce.
Olhos pequeninos, negros e foscos...quanta vida já não viu?
Tua gargalhada de criança em contraste com pelos pelo rosto denunciam uma pureza ímpar, capaz de desmoronar no vento.
Personalidade gritante, fugaz e sublime. Sonhos em carmim.
Mistério. Milagre. Surpresa em pele. Pedra firme. Infância contida pelos poros.

O mundo fez-te assim. E tu, fez-te do mundo o que queria viver?
Todo dia é dia de renascer.


Desejo-te para essa nova idade toda a vida de uma vida inteira.
Desejo-te para essa vida inteira, todo o amor que for possível (os improváveis também).
Desejo-te o amor de todas as pessoas que tiverem a sorte de cruzar o seu caminho.
Desejo-te para o caminho as gargalhadas mais sinceras e as dores que façam crescer.
Desejo-te para as dores, os melhores ombros e as melhores calmarias.
Desejo-te calmarias nas relações familiares que aninhem cada pulsar.
Desejo-te pulsões sãs, insanas e simples.
Desejo-te simplicidade para o conjunto e o complexo para quando tiver vontade.
Desejo-te vontade de acordar todas as manhãs em busca de surpresas.
Desejo-te surpresas que te irradiem as retinas.
Desejo-te retinas que sempre vejam além.
Desejo-te além de tudo...que saiba o quão querido você é por mim. Não posso te dar um abraço hoje, mas saiba que tens lugar guardado no meu coração, Pedro.

Te adoro e te desejo o mundo inteiro numa só velinha de bolo.
Feliz aniversário! Parabéns pelo menino-homem tão incrível que você é.
Conte sempre comigo, mesmo.





terça-feira, 30 de agosto de 2011

Corrente cadeado

Alma lasciva que lá se vai, casta melodia que no caos se esvai.
Profundo, profano e covarde lamento que no vão momento, subitamente escora-se na espera.
Pássaro curto, que faz da gaiola sua terra natal e do vento, seu porto vivido em par.
Seio infundido, coração pertencente e preenchido.
Ilhado receio do abandono, arado anseio do encontro.
Léguas, placas, faixas, nuvens, praias e ponteiros.
Lanço-te o coração e logo... tenho-te.



Basta o alguém para que o além seja ninguém.



sábado, 20 de agosto de 2011

Pura flor de vento gris



O silêncio do irrespondível é o ópio de um coração corrompido pelas doçuras de um tempo que não escorre entre as vísceras. Destilar o veneno das entrelinhas entre as cavas veias do passado terno, faz-me correr o risco de sugar o sublime do mundo em pupilas de cobre e sorrisos glaciais.
Enquanto cada vértebra aninha-se em postura de desconforto, o peito desalinha a nuance dos penares vivos por mil teclas de perdão.
Quando a vertigem torna-se súbita pela sua própria força e instantaneidade, abro as brechas para ver além de mim. Lá fora o tempo desmorona-se em brisas compostas de âmbar, vanilla, sândalo, fava, anis e madressilva. Aqui dentro, o vão momento sucumbe do impressentido volto logo.
Há tanta vida na vida que me admira o medo de viver viva aquilo que se viveria uma vida toda.
De que adianta vencer guerras se a paz não é declamada como triunfante?
A sorte é de que o tempo tende a temperar novas manhãs. Novos gritos. Novas poesias. Novas alegrias.
E quem sabe, um novo e velho você.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Tudo aquilo que não cabe em caixas de papelão.

Seu ninho era quente, e mesmo que emaranhado de espinhos, era confortável e carecente. Mas quando seus ossos começaram a esticar, as dores apareceram por toda parte e minúsculo ficou o espaço para que seus ossos pudessem tomar forma. Somente um sutil bater de asas poderia acariciar seus penares, mas não queria aprender a voar. Suas asas estavam cortadas por amor e na garganta sentia a dor das palavras presas. A pequena menina já não era tão pequenina, mas seus olhos continuavam os mesmos, mas naquele momento estavam fixos e perdidos. Sem horizontes e sem ternura. Estava imóvel e frágil como um jarro de cristal. Ela não conseguia mais permanecer à margem de si mesma e de colos rompidos pelo silêncio. Pegou impulso, esticou as asas de porcelana e foi num fluxo de vento atormentante que lançou-se ao mais profundo abismo aterrador. Espatifou seu coração em milhares de pedaços estrídulos. Ali estava seu velório. Desfalecida em seu próprio berço gemia a dor da morte. Assassinou a criança que existia em cada célula e descobriu que crescer era um torturante palco de luz, a distância era um grito vermelho. Seu peito estava dilacerado e nada, nenhuma dor, nenhum ser humano havia causado amputação parecida a qual pudesse ser similar ao corte profundo que ela mesma feriu-se.
Metamorfoses podem te transformar, mas algumas transformações precisam de dor. Ali estava eu, sendo aguardada em um útero quentinho. Ali estava eu, lutando para sobreviver numa incubadora enquanto meus pais acariciavam minha mão pelo buraquinho. Ali estava eu, perdendo meu primeiro dentinho, cantando "Nesse meu mundo só meu" da Alice no país das Maravilhas, indo para o mar de mãos dadas com meu pai, sentindo a aflição do meu primeiro dia na escola. Ali estava eu, brincando de boneca sozinha no gramado. Ali estava eu, ouvindo o coração da minha irmã bater pela primeira vez. Ali estava eu chamando Deus de "Papai do Céu". Ali estava eu, desenhando na varanda. Ali estava eu, brincando com a Pintie. Ali estava eu, na varanda observando as janelinhas dos vizinhos. Ali estava eu, com febre, sendo cuidada pela minha mãe tão cuidadosa. Ali estava eu, nos natais cercados da família. Ali estava eu, no lugar onde todos deveriam voltar um dia, o lar da infância.
Mas agora aqui estou eu, com ombros maiores e meias rendadas. Aqui estou eu, com um batom vermelho e olhos pintados. Uma mulher com cicatrizes de menina que jamais irão embora das minhas lembranças mais doces. Viver é desabar-se e edificar-se.
A tempestade que cai agora, acabará pela manhã e todos nós um dia poderemos ver um arco-íris preencher este céu nublado em sorrisos de reencontro.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Gobelin

Toda vez que fazia silêncio, debruçava em seus pensamentos como um gatinho no peitoril da janela: Estático, porém em alerta. Tinha pálpebras puras como um de um vestido de noiva, porém num tule negro escapavam seus olhos densos como um buraco negro. Era tecida de linhas multicoloridas e ao mesmo tempo formada por um expesso xadrez desgastado. Para não declamar sua palidez, vestia-se com vestidos violentos, quase que entusiásticos. Numa fracção de mil detalhes era parte ninguém e parte todo mundo. Com a boca tecida de moiré bordô sorria calmarias e engolia tempestades num só penar. Seu coração era como um sinuoso ballet rendado das mais variadas emoções impetuosas. Coração que estalava em cacos e canções. Quando as dores apareciam adorava sentar na platéia da própria vida e assistir-se como uma trama anestésica, mas dificilmente era assim que acontecia. No palco era artesã de maus presságios, de grandes esperanças, alianças, sonhos e tentações.
Quando entrava em shoppings sentia cheiro de divórcio, era difícil que ela tivesse tal desencantamento do mundo. Mas quando tinha, via a tristeza humana em todas as esferas. A traição em todas as etapas, a falta de amor por todas as ruas e a solidão em cada passo célere. Quando sentia à alma desgarrada de si mesma, pedia calma para os vendavais de cetim.
Tão bom olhar as luzes da cidade, lá de cima de um precipício aterrador e assim como um tetris, ter a coragem de cair até encaixar e desencaixar, até enfim se erguer como um edifício tecido de bayadère. Foi assim que fez, num desencadear de mistérios tornou-se leve como linho...porque seus sorrisos eram tecidos partilhados em dois quintais distantes de toda a vã loucura, seguros de todo o perigo do asfalto. Como uma colcha de retalhos, abria seus sorrisos invisíveis em desalinho para o único sentimento que mudava tudo: O amor por quem a tece Paula.


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Grito histórico

"Todos nós nascemos originais e morremos cópias." (Jung)


Ao andar pelas ruas da cidade, sinto-me como quem já não consegue render-se a suposição irrefletida . Sinto tênue calmaria em penetrar os rostos mais conflituosos e ver beleza na simplicidade da rotina desconhecida de cada traço facial. Presto muita atenção em gargalhadas libertinas, ombros curvados, gravatas apertadas, mãos fechadas, pernas duras entre passos espavoridos, sapatos coloridos, lábios glaciais e qualquer ruído que dê resplendor ao meu olhar analítico. Como se fossem obras de arte, percalço a intransigência de participar da ressonância espectral que cada ser humano emite sem dizer. Imagino suas súpilicas, valsas de aflição, ofícios fúnebres, manias peculiares, nomes próprios, angustias espantosas, ansiedades imaculadas, endereçoes , sonhos de cristal, risadas queridas e problemáticas lânguidas que possam passar pela retina da sociedade como impróprio.
Temos por essência arisca um apego a exaltação de nossas falsas magnificiências, vomitar intelectualismo de gaveta e aplaudir ao nosso constante hábito de atribuir-nos virtudes improváveis. O ponto curioso da prática antropológica que cada ser humano acaricia é esse tal desespero para manter-se dentro de hegemônia conservadora. Os julgamentos fulminantes que levitamos entre as bocas sujas perante ao outro, não é nada mais, nada menos, que uma mania violenta de enraivecer as estruturas pelo orgulho de julgar a si mesmo como mais um belo exemplar do sistema. A auto afirmação sempre foi um prato perigoso para incinerar mentes abertas em campos afastados enquanto tême-se a matança da máscara que cobre o infectado coração humano. Mergulhamos entre febres de luxúria, fermentação da cobiça, idolatria irracional ao insulto, amor aos julgamentos exagerados aos outros, que valorizem ao próprio reflexo, falta de compaixão aos momentos ingratos das personalidades humanas e principalmente o prazer do hábito da incompreenção. Mergulhar na decadência de agirmos como vermes carniceiros só nos conduz ao morredouro dos nossos presságios. Pisar nessa terra ferida e travar o conhecimento do outro é como fazer com que não exista nenhuma lógica racional em Alguém ter derramado sangue em nossas veias lívidas. Demência desavergonhada, é isso que temos em nossas loucuras mais petrificadas.
Se cada um de nós sentisse ao menos a vontade de refletir um olhar materno perante ao outro, não seriamos tão escravos da estremicida sensação de dissuadir o real sentido de respirar entre as horas mortas desse céu denso. Liberte-se do seu medo encarniçado de descobrir que precisamos em grau de urgência, de um alarme a vulgarização dos nossos sentidos obscuros. Perceba a candura dos olhos das pessoas. Não sinta prazer em pastorear rancores, nem de tatear trevas. Compartilhar amor, não dói. Chega de supertições sociais, de tardia revelação de carinho entre os seres humanos. Apazigue e finalmente deixe de acordar pela metade. Bom dia.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Palco aberto


O que constitui o ser e a natureza das coisas é o que existe por trás das cortinas. Apenas aquele que não possuir entre as veias um sangue vermelhamente desprovido de hipocrisia, não sente que o pensamento nada mais é do que o ensaio da ação consciente. Nada se finda nem inicia-se sem o processo subsequente. Muitas das atitudes que julgamos levianas e inconsequentes começaram lá onde o inconsciente fotografa como uma chapa desprovida de esquecimento. Atirar-se na voragem da descoberta de si próprio exige o despejo de toda maquiagem sanitária. Vomitar as epístolas e frases de bolso faz com que nossos ouvidos dilatem o verdadeiro sentido de se transitar a arte de cada um. Inquirir a inocência perdida entre os anos só nos causa verdadeira sensitiva indagação. Só aquele que conhece e assume o passado, sabe que a força está agora, prontificada recentemente para fazer e ser o que se quiser. Não tenha receio nem desonra de ser quem habita o peito falho, apenas assuma a farda do bem e utilize-se para uma nova era de amor indiscriminado. Seja quem você gostaria de passar o resto da vida ao lado. Agora sim, faça sua arte: Mude roteiros sem precisar ser teatral. Ria e faça rir.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Regenerar-se


O que é distante mora ao lado do que de perto aguça o peito gris. Não existe cólera ociosa no pensamento que permeia o poder inalienável de vivenciar como momento aquilo que se sublima constantemente . Presenças intocáveis deixam retalhos pela epiderme lasciva. Entre tricomas curtos e finos a sanidade expele toda e qualquer natureza que não cause celebração solar para cada célula usurpadora. Era comum a intensa ramificação oriunda de universos tão paralelos que mal sabiam residir calmaria entre as bochechas nada descontentes mas entre vias contaminadas de realidade, solenizava-se o instante zero na dor e na delícia de respirar o viver das coisas.
Lá onde o coração se renova, desabrocha no presente um futuro puro de fulgor inesgotável.
A nostalgia acalenta os fios entre noites marcada por estrelas compartilhadas e renova os ossos em um mergulho nítido ao que se chama de eternidade.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Let the sunshine in.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sem verbo

Gostava de formar laços de seda, de enrolar os dedos nos fios de telefone, de fitar as cordas do seu violino, desenhar livre em uma folha de papel, fazer carinho, dedilhar grãos de areia e principalmente de acompanhar a leitura passando a ponta do indicador pelas letras. Perto do coração que gravava movimentos articulados, vestia uma roupa tão desajeitada quanto seus ombros e saía de óculos de sol para ver o mundo menos escancarado. Gostava de fechar os olhos um pouco antes do sol chegar, de pedalar em ladeiras, tirar fios de cabelo do casaco e de encontrar chocolate na mochila. Paula tinha vergonha de admitir que ama receber flores, de dizer que detesta quando dizem que All Star está desamarrado e que de verdade não importa-se com o que dizem sobre sua maquiagem forte. Paula tinha vergonha dos seus joelhos de garoto, da sua coluna desalinhada e dos seus pés tão pequeninos quanto os de uma criança de dez anos. Paula odeia esportes e de fato não é porque ganha-se ou perde-se, mas porque é desastrada, não consegue correr, gritar ou pular em público. Paula gosta de falar na terceira pessoa, pois sente-se analisando a própria existência. Um botão faltando na blusa era capaz de deixa-la fora de si, mas nada a irritava mais do que tentar tirar pasta de dente de um tubo quase vazio. Ela era feliz, o problema era que isso nunca dependia muito dela. A vida gostava de irrita-la com os detalhes mais engraçados, mas às vezes era pesado demais para suportar sem lágrimas no final da tarde. Paula sempre quis guardar em um potinho os cheiros mais gostosos da vida, óbviamente que cheiro de livraria antiga, aeroporto e de pipoca entrariam fácil nessa lista. Colecionava coisas estranhas, guardava fotos aleatórias, difamava seus defeitos mais ridículos para cada célula do seu quarto. Ela gostava de estudar, o passo difícil era parar o que estava fazendo. Sempre muito curiosa, incrível como gosta de saber de coisas que ninguém repara mais. Achava cheiro de mamão a pior coisa do universo. Quando sentia-se sozinha, criava vidas entre as folhas de papel ouvindo músicas realmente gostosas aos seus ouvidos. Quando comia algum prato feito por alguém que amava, nunca mais esquecia o gosto. Andava de meias só quando o frio realmente arrepiava cada poro do seu corpo pequeno. Olhar nos olhos de um cachorro a fazia sentir paz. Cantar para Cristo a fazia sorrir.
O vapor do café a encantava, o sopro do vento a acalmava e deitar na canga para observar as estrelas era como se tudo voltasse a fazer sentido. Enquanto tomava banho, gostava de imaginar que estava em qualquer outro momento diferente para tentar encontrar soluções. Cada vez que ouvia uma gargalhada ser provocada por suas gracinhas, sentia-se ganhando um oscar.
Ainda que ela não soubesse bem se gostava de ser quem era, nada a fazia mais feliz no mundo do que amar alguém especial. Em contraste, nada a fazia mais infeliz no mundo do que não ser amada por alguém especial. Paula odiava sua mania de parar de ver séries na metade, vomitar, banana, anelídeos, Paulo Coelho e verde musgo. Sentia nojo de si mesma cada vez que provocava uma lágrima, mas quando era ela quem chorava... tratava de fugir do seu ego e ir dormir até outro dia chegar. Difícil mesmo era quando ela conseguia sentir um mês passando como se fosse um ano inteiro...

O que eu estou escrevendo?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Tela


O céu aberto é um convite para ir para qualquer lugar que te faça sorrir. Certas janelas lembram-me que viver é melhor fora das molduras. Bem dentro dos quadros, é assim que eu quero estar. Os cenários não me limitam, a criatividade pode fazer milagres quando precisamos ver o impossível entre as frestas. Pintar com os dedos, deixar a tinta diluir nossas lágrimas, soltar os medos entre os pincéis, dançar entre as manchas, confiar na arte para construir castelos.
Esse meu preto e branco já não é tão rock n' roll, anda precisando de uma tal valsa feita de cores fortes para desatinar a vida em arco íris.
Alguém ai tem lápis de cor?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Contos de farpas

Cantava bem baixinho em notas altas enquanto o céu cobria seus presságios. O fel do coração derramava-se no lençol carmim. Tecia hinos dourados como colméia ao sol que tentava amorenar sua constante palidez. Quando abriam suas páginas, sentia-se como bailarina de caixinha de música. Feliz por estar ali, encantadora ou importuna. Com olhos fartos pelo lustre de cetim, ajustava-se em tropeços, e com o tremor de suas mãos moldava seus delírios em retratos feitos de teclas. O latejar de sua mente era isolado, mas ela sabia voar. O murmúrio desvanecia-se como névoa dissipada pelo vento. Perdia o tino mas não sucumbia ás forças de bambos chãos. Paula era poesia estranha, rima diferente, palavra que não vinha a mente, verso meio desalinhado, involuntária melodia que resolve fazer parte quando menos se espera. Quando a loucura alheia a puxava para a doença, ela dançava. Dançava longe dos seus pés. Não deixava que pudessem rasgar a carne que já estava em seus ossos branquinhos, muito menos que assoprassem suas cinzas enquanto as minúsculas células desfaziam-se. O asfalto gritava palavras de um mundo em crise, enquanto do céu caiam lágrimas. Para sorrir, esvoaçava asas de cartolina e fazia-se pluma. Mas o que confortava mesmo, era a luz que afundava o quarto entre as brechas da janela de madeira.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Era perceptível


André abandonava
Laura estava diante do seu primeiro amor. Não sabia muito bem como lidar, era nova demais para compreender como manteria algo tão forte dentro de si mesma. André era um jovem de beleza avassaladora que cultivava um amor profundo por ela. Era divertido, sensato e objetivo mas às vezes esquecia que Laura precisava sentir-se livre. André tocava guitarra e adorava bandas antigas. André gostava de dedilhar os traços de Laura enquanto ela dormia. André amava cozinhar com ela. André era escritor, mas nas veias era mais real que o próprio respirar. Em um show do Metallica, Laura gritou: "Quer casar comigo?" e recebeu um beijo com gosto de álcool como resposta. Laura de alguma maneira esperava que aquilo fosse um sim. Viveram um romance inesquecível, transpiravam paixão adolescente. Namoraram por longos anos até André mudar-se para o Canadá com sua família, juraram que isso não seria problema. Laura cresceu, André não mais. Eles nunca mais se viram, era tarde. Laura sentiu-se abandonada, ele nunca havia ligado para ela, nem mesmo mandado uma carta. André morreu em um acidente de trem. Laura nunca soube. Até que...
Laura conheceu Eduardo.


Eduardo magoava
Eduardo era um homem interessante, culto, não muito bonito. Eles não eram tão felizes juntos, mas Laura engravidou. Laura não gostava da idéia de ser mãe, mesmo assim os teve. Depois de sete anos de casamento, resolveram viajar sem as crianças.
Laura tinha acabado de vestir seu novo biquíni. Era cor de rosa e tinha lacinhos delicados nas laterais, mal podia esperar para chegar à praia. Sua pele era tão branquinha quanto um algodão mas ela não ligava, não via a hora de mergulhar. Ao chegarem, Laura arrumou as cadeiras, as cangas e o guarda sol. Era a segunda lua de mel do casal, seus filhos Bruno e Giovanna estavam em casa com a irmã de Eduardo.
Tirou o vestido, passou o protetor solar, colocou um lindo óculos de sol e sentou-se na cadeira. Seu marido a observou dos pés aos fios de cabelo e disse: "É melhor tomarmos cuidado para não comermos muito na viagem!!"
Laura logo entendeu que ele não havia notado que seu biquíni era bonito, ele observou o seu corpo e construiu com mais um saco cheio de tijolos um muro de insegurança quanto à auto imagem de Laura. Foi tão forte sentir-se feia que mesmo depois do divórcio em 1989, ela nunca mais saiu do maiô e mesmo assim ainda sente-se complexada dentro de um. Eduardo nunca a procurou novamente. O estranho era que Laura era uma mulher linda, não havia nada de errado com ela. Até que...
Laura conheceu Otávio.

Otávio esquecia
Otávio sempre foi um homem repleto de amigos. Possuia grande irritação nos olhos e sobrancelhas medonhas, pareciam taturanas. Otávio gostava de deixar a barba falhada e usar blusas largas. Nunca levou Laura para jantar sem as crianças. Odiava o macarrão que Laura fazia com dedicação e sorrisos múltiplos enquanto ouvia Chico Buarque.
Otávio odiava o barulho que os saltos de Laura faziam no piso de madeira. Odiava seu perfume forte e o modo que ela dormia esparramada na cama. Otávio era executivo e Laura dava aulas de piano. Otávio tinha os nervos quentes e Laura era a paciência em pessoa. A escova de dentes de Otávio era azul e a de Laura, lilás. Laura odiava os pelos de Otávio e o modo que ele fazia barulho mastigando. Otávio amava as pernas de Laura e seus seios fartos. Laura gostava de comprar roupas enquanto Otávio passava horas bebendo com seus amigos. Otávio nunca observou como Laura era angelical ao dormir. Otávio não gostava de sair com Laura. Ela sempre foi uma mulher delicada e entregue aos seus dons. Laura possuia fundos olhos azuis e silhueta afinada. Quando tocava o piano da sala, seus filhos sentavam para ouvir aquela corrente sonora como se a mãe fosse um anjo a ter caído do paraíso. Otávio via fórmula 1 e não comia salada. O tempo foi passando e Laura, Otávio, Bruno e Giovanna ainda estavam juntos.
Uma sexta-feira de novembro havia chegado. Laura acordou radiante, queria estar linda. Soltou seus fios claros, colocou seu perfume favorito e passou um batom de cor forte. Verificou se tinha algum telegrama, olhou a caixa de emails, passou meia hora olhando para o telefone. Ouviu alguém na porta e pensou que fosse o florista. Não era. Foi ao mercado com as crianças, comprou tudo o que precisava para fazer um jantar maravilhoso. Ao chegar em casa, arrumou todos os quartos, passou os ternos do marido e foi preparar o jantar enquanto as crianças brincavam. Já havia passado da hora de Otávio chegar. Laura ficou preocupada, ele não antendia ao celular. Laura pensou que ele deveria estar preparando uma surpresa para ela. O relógio bateu três da manhã. Laura observou o jantar tão frio quanto o seu marido, foi dormir com seus filhos e deixou que as lágrimas pudessem lavar suas bochechas da falta de sorrisos.
Otávio chegou no dia seguinte e havia esquecido de que tinha sido aniversário de Laura. Laura nunca o contou. Agora tinha três filhos: Breno, Giovanna e Otávio. Laura morreu aos quarenta e três em uma parada cardíaca ao lado de Otávio e desde aquele dia que ele havia esquecido de seu aniversário, nunca mais tinha sido sua mulher. Ela tinha feito o papel de mãe. Se não era uma mãe atenciosa aos seus filhos, imagine ao filho de cinquenta e oito anos. Eduardo ganhou a guarda dos filhos e dois meses depois, Otávio casou com a secretária de vinte e seis. Até que...
era tarde, Laura não conheceria mais ninguém.

Laura desperdiçou

O importante não foi quem supostamente esqueceu, magoou ou abandonou. No final era perceptível que Laura havia jogado fora a oportunidade de ter sido plenamente amada ao não ir embora das suas relações frustradas. Para ela, fugir do sofrimento era ausentar-se da própria vida. No último segundo de vida Laura entendeu tudo. Ela sentia falta de alguma coisa que não estava lá, mas não sabia o que era. Achava que era falta de casa cheia, de muitas pessoas. Quem sabe até fosse falta de si mesma. De pronto soube, já era.
Até que...

Laura reencontrou André.




sábado, 5 de junho de 2010

Entre gestos


No corpo carrega uma alma inifinita que conta um, dois, três para fechar os olhos e começar a sonhar. Tão pequena essa tal gigante que pensa que a vida é fácil de viver dentro dos olhos. Não sabe onde está, nem para o que veio mas sabe que seus pés sempre trilham o que o passado exala. Tão louca essa tal vibrante mania de ir embora dos pesadelos, menina que sonha com o que vê dentro do espelho. Ela sabe como pode ser uma tempestade lá fora porque dentro tem o sol. Sol agúdo que esquenta a tormenta dos seus motivos castanhos de não saber o que é. Tantas vezes acalentada em outonos infernais procurava abrigo no próprio peito. É perdida, mas pessoas parecem conseguir se encontrar com as suas palavras. Entre cada fronteira criava força entre ossos frágeis e destruia muros de aço com palavras de algodão. Para respirar trazia as palavras ao convívio, como um livro aguardava olhos que soubessem ler com atenção e ousadia de compreensão. Leve pintura de porcelana que estala, estala estala e se espatifa no chão quando não é iluminada por um faról de poesia. Quantos saveiros, quantos navios e quantos naufrágios dentro de do seu oceano orgânico a apontantavam como navegante das próprias ilusórias correntes marítimas. Quando precisava de um sopro de esperança, imaginava que alguém iria com ela pela vida, pelos passos, pelos poros, pelos sonhos e pelos ralos. Tão densa a armadilha de sempre ter que sentir seus fios soltos no ar, como se uma melodia não pudesse mudar o futuro de lugar. Quando a menina pisava fundo dentro do mar, era como se uma flor de gelo brotasse nos espacinhos entre os dedos de seus pés. Pés bailarinos e desengonçados eram regados por correntes veias azuis. Seus dentes dilaceravam emoções, mordia a vida com vontade. Seu corpo era estrelado de células dilatantes e branquinhas, que mergulhavam em serena nostalgia refugiada entre as raizes dos pêlinhos dos braços pequenos. Nostalgia que afagava a lembrança de ter sido livre. Livre entre giz de cera, casinha de madeira e pêlo de ursinho. Não deixe que o tempo a leve embora do que os nervos prendem e chamam de lembrança. Se o coração bater forte e lembrar, abra a gaiola e pinte um céu. Ela sabe voar para perto, para longe, para o vento. Mas se coração bater forte e pedir, abra a porta da sala, tire o casaco pesado dos seus ombros pequenos e a convide para sentar. Ela sabe permanecer e ao mesmo tempo levitar entre emoções em perfeita sintonia compartilhada. Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço juramento: Amo firme, fiel e verdadeiramente a liberdade de permanecer em tudo aquilo que importa entre os calendários que caem atrás do armário e nos fazem esquecer que o tempo não espera.








quinta-feira, 13 de maio de 2010

Retinas e pulsações



Quando a luz não vem de dentro, é melhor abrir as janelas.


Era hora de reinaugurar a própria vida, começar um caderno novo. Desdobrar-se em um oceano perdido. Sair da gaiola da própria mente e enfrentar as limitações do mundo. Pelas retinas rendia-se aos pés da impressão imediata. Pelo coração derramava-se aos braços do conhecimento ao outro. Seu coração estalava em articulada sintonia pulsante. Encostava os dedos no peito, mas não os conseguia afundar. Ela queria tocar seu coração de menina, embaralhar-se em veias e mapear seus labirintos em uma retina que pudessem refletir o que se sente dentro de um beco chamado espelho. Aos cacos sorria em servir. Precisava ser luz em luma. Silêncio de hospital. Ruído de banho abafado pela porta. Um par de pantufas no inverno. Margarida no cantinho do asfalto. Chocolate quente em caneca antiga. Brinquedo encontrado. Esconderijo de criança. Um barquinho de papel. Broncas para o bem. Personagem de desenho. A música escolhida para cozinhar sozinho. Espacinhos entre os dedos que fazem lembrar de algum contato com outra mão. Caneta imediata para anotar telefones. Chaveiro de viagem. Ursinho de dormir. Útero que forma. Coração que adota. Ar condicionado no calor. Lanterna embaixo da cama. Lápis de cor no estojo. Ouvinte atenta. Alianças de casais. Travesseiro com cheirinho de shampoo. Um poema sem rimas na gaveta. O balancinho no quintal da casa antiga. Mãos que fatiam lágrimas. Um sorvete favorito do verão. Casa pintada. Um biscoitinho de madrugada. O pulo na piscina. Sofá confortável. Arco íris. Dedos na grama. Resolução da prova de física. Malas prontas. A rede confortável. A coca-cola congelando. A praia de tardinha. Uma viagem em família. Uma massinha de modelar. Uma bailarina no centro da sala. O Rock n' roll no quarto. Um gatinho ronronando. Um segredo engraçado. Uma loucura boba. Seriado querido. Orquídeas na mesa. Pegadas na areia. Neve no telhado. Nomes escritos no ar. Tela recém pintada. MPB no churrasco. Grinalda da noiva maquiada. Constelação favorita. Pulo na cama. Suco de uva às quatro da tarde. Cuidado de esposa. Pai que chega cedo. Casinha de bonecas na grama. Um passarinho na janela. Bola que vêm por cima do muro. Ânimo de adolescente. A tatuagem eterna. Frasco novo de perfume antigo. Colo de mãe. Cheiro de livro novo. Sorriso tímido. Fita cor-de-rosa no cabelo. Cinema com pipoca e guaraná. Beijo de bebê. Pipa na mão do menino. As bochechas dos avós. Os vídeos da infância. Presente na porta do quarto. Oração secreta. Borboleta que pousa inesperadamente. Abraço que aquece o outro coração. Álbum de fotografias no armário. Um casaco na bolsa. Um beijo apaixonado. Janela de avião mostrando as nuvens. A conchinha diferente na praia lotada. Um pijama listrado. O filme devolvido. Uma frase que se espera. Um brigadeiro na panela. Arte na parede da garagem. Uma carta entre as contas. Uma gargalhada solta pelo quarto. Um conto inventado para dormir no escuro. Um abrigo na tempestade. Alguém. Alguém para te fazer sorrir.

Com os olhos cheios de cores possuía uma relação ainda sensível com seus diamantes não lapidados. Seus sinos ainda eram roucos. Estranhamente roucos. Mesmo assim, seu organismo implorava para que ela transformasse uma vida que fosse. Mas para isso, ela precisava transformar-se. Ela mergulhava ao encontro de si mesma e percebia que suas células entregavam fotografias para que guardasse com carinho. Ao gosto inato da dissolução noturna percebia que em instantes aprendia sobre suas próprias dores nas tristezas do mundo.

Paula via-se nas feridas das pessoas. Na solidão de quem afasta um amor e chora em um travesseiro frio. Na fome dos meninos da esquina. Nos preconceitos. Nos dedos apontados. Nos gritos. Nos hospícios. Na pipa presa no fio. Na fuga do bichinho de estimação. Nos lutos inevitáveis. Na monopolização. Na falta de amigos. Nas lágrimas que são derramadas em secreto. No livro sem leitor. Nas separações. Nos abortos. Nos assaltos. Nas irritações do cotidiano. Nas dores de cabeça. Na nostalgia que corrói. No escritor esquecido. Nas músicas de namoro antigo. Nas culpas sem remédio. Nos casamentos infelizes. Nas religiões. Na distância. Na falta de cobertor. Nos mendigos em papelões. Nas crianças que precisam trabalhar. No governo formado por ladrões. Nos professores que traumatizam. Na rejeição. Na miséria das mentes materiais. Nas purezas dos marginalizados que não são observadas. No teatro vazio. Nas portas trancadas. Nas histórias que não conseguem ter fim. Nas dores de coluna da mulher do prédio. Nos discos arranhados. Nos desempregados em desespero. Nos asilos. Nas mulheres que não podem ter filhos. Nos filhos que crescem sem seus pais. Na morte precoce. No atropelamento da vizinha. Na fratura do estudante. Nos velórios sem palavras de consolo. Nas brigas que afastam. Na falta de um perdão. No telefonema que nunca aconteceu. Nos pratos vazios. Nos envelopes sem cartas. Nas palavras ásperas e as nunca ditas. Nos abraços insossos. Nas lágrimas da criança. A beleza por dentro de um coração revestido em lataria. Nas minhas contradições, erros e atitudes patéticas. Na vida sem Cristo. Nas friezas dos médicos. Nos talentos que são enterrados no cemitério. Nas garrafas vazias. Na loucura porca nos bolsos políticos. Nas drogas pelo corpo. Nos hospitais e escolas públicas. Na tristeza nos olhos de quem vira as costas e a gente não consegue ver. Em todo e qualquer peito que não pulsa o amor. Nós devemos ser a mudança que queremos presenciar em cada ser humano. É hora de abrir um novo caderno. Nunca é tarde para escolher uma nova capa motivadora e focar todo o fôlego em páginas em branco. Se for da sua vontade, comece você também. O novo incomoda porque nos desafia. O novo não precisa gritar, pois em silêncio já nos convida a trocarmos as lentes. O novo é ver no rosto do outro um espelho e em entusiasmo conservar viva a fome de alimentar outras vidas.



Não é engraçado quando olhamos outros olhos bem de perto e conseguimos ver nossos rostos? É, assim como se pudéssemos fazer alguma coisa...



domingo, 9 de maio de 2010

Minha MÃE


Em dias vinte e três de agosto ela fez alguém ser mãe e tornou-se mãe.

Quando nós somos pequenos nós imaginamos que elas sempre foram mães, porque de fato nós já nascemos vendo tal condição. Porém, muito antes de serem mães, foram garotas tão pequeninas quanto nós. Minha mãe não pode ser descrita apenas como uma mãe. Porque de fato antes de ser mãe ela foi filha. A responsabilidade de ser mãe é um fardo que ela nunca viu como um, mesmo cansando algumas vezes como qualquer uma cansa.
Ela sempre foi uma das pessoas mais puras que eu já conheci na vida. Às vezes é um vulcão que se explode em lavas sem culpa, como muitas vezes faço. Mas na grande maioria das vezes seus olhos mostram uma criança que nos faz ter vontade de abraçar até que ela sinta o quão amada é sem que eu diga e muitas vezes deixe de expressar. Ela é uma mulher encantadora.
Ela é forte, sempre foi forte. Nunca esqueci nenhuma vez que ela sentou para chorar comigo, muito menos as bobeiras que riamos em silêncio uma da outra. Eu sinto muito orgulho de ser filha de uma filha. Filhas que nasceram juntas em um mesmo domingo de agosto e que aprenderam, aprendem e aprenderão por toda a vida lições valiosas.
A relação 'mãe e filha' está longe de ser cor de rosa. A relação é vermelha. Vermelho humano.
É vermelha por ser intensa, louca, sublime, sólida e complicada ao mesmo tempo que é apaixonantemente inesquecível e irremediavelmente insubstituível. Filhos não são projeções, muito menos mães. Somos realidades inegáveis e nem sempre simples. Porém, somos amor. Amor este que não pode ser comparado a nenhum outro. Porque de fato fomos conectados por um cordão umbilical, por olhares que ninguém mais viu, por lágrimas, por consolos imediatos, por gargalhadas sinceras, por madrugadas sem dormir, por sangue, por grito, por força, por respiração, por dependência amiga e cristã. Mães amam filhos como amam a si mesmas, muitas vezes superam ainda mais o que sentem e filhos amam mães como heroínas.
Mãe, nosso encontro foi escrito por Cristo para que nós duas tivéssemos a chance de aprendermos, ensinarmos e principalmente nos amarmos de todo coração. Mãe, eu não estou te escrevendo só porque é dia das mães, de verdade. Eu estou te escrevendo porque sinto sua falta de um jeito inexplicável, ainda que esteja dormindo no quarto ao lado. Eu te amo, mãe. Eu te amo de verdade e eu não sei existir sem saber que você também me ama eternamente.
Eu me orgulho muito de você. Estamos juntas nesse caminho. Obrigada por tudo.
Parabéns por ser MÃE.